Na fila

Por: José Antonio Pereira

Chico Franco caminha pela Rua Major Claudiano quando, após a Travessa Archetti, se depara com filas em ambas as calçadas. Para, como se ocupasse o derradeiro lugar de uma delas, interroga o velho à sua frente:
- Por favor, jovem. Se mal lhe pergunte, esta fila é para comprar ingresso para o jogo da Francana?
- Não, não. Aqui é a fila do Banco. Agora os velhos e aposentados temos direitos, o banco pôs um caixa só pra nós.
- E aquela fila lá na outra calçada?
- Aquela é a fila da Caixa.
- Qual é a graça do jovem?
- Einh?
- Qual é a sua graça... o seu nome.
- Ah, sei. Meu nome é Donizete da Silva... Minha mãe era devota do Padre Donizete.
- Chico Franco, seu criado.

Donizete olha com certa desconfiança para aquele velho que parece ter cem anos e não para de falar, que leva a mão à aba do chapéu cada vez que alguém se espreme no corredor estreito que medeia a rua e a fila. Estranha,em manhã tão quente, o terno, a gravata e, sobretudo, a bengala de Chico Franco, ferindo com insistência o cimento da calçada. Acha tudo estranho, mas deseja ser sociável.
- O senhor também veio receber a aposentadoria?
- Não, jovem. Qual é mesmo a sua graça?
- Donizete, eu já disse.
- Muito prazer. Chico Franco, seu criado.
- O senhor vai entrar no banco?
- Não, não. Eu estou indo ao Museu Histórico para colher algumas informações, sanar algumas dúvidas. Aliás, o jovem sabia que, antes de abrigar o Museu Histórico José Chiachiri, aquele prédio serviu para outras finalidades?
- Não, não sabia.
- Pois saiba, meu jovem. Aquela casa foi, primeiramente, a cadeia pública e o fórum da comarca de Franca. Não faça esta cara espantada, jovem. Foi cadeia e fórum. Depois, o prédio abrigou a Prefeitura e a Câmara Municipal.
- Não diga.
- Digo. Digo, sim, meu jovem.
- Quem diria, einh?
- Eu digo, jovem. Qual é mesmo a sua graça
- Donizete.
- Chico Franco, seu criado. Pois é, jovem Donizete. O Paço Municipal era ali, ao lado da Escola Profissional. E saiba mais: foi lá que eu comecei a trabalhar no serviço público. Eu era importante... As pessoas esquecem tudo. Eu, não. Tenho memória de elefante, conheço a história da minha cidade tintim por tintim...
- Como é mesmo a sua graça?
- Donizete.
-Chico Franco, seu criado. A gente estava falando...?
- Da Prefeitura que ficava lá no Museu.
- Ah, isso mesmo. Quem transferiu a Prefeitura para o prédio novo, lá na Avenida Presidente Vargas, foi o Dr. Lancha Filho. O vice-prefeito era o José Correia Neves, você sabia? Quem me arranjou emprego na Prefeitura foi o Hélio Palermo...

A porta do banco se abre, a fila começa a se mover. Chico Franco segue os passos de Donizete, perguntando:
- Qual é mesmo a sua graça?
- Donizete.
- Chico Franco, seu criado. Será que o jovem pode me indicar como chego na Escola Profissional, onde o Bolela é professor? Ele é goleiro do Caramuru.
- Chega ali na esquina e vira pra direita. Na esquina seguinte o senhor vê a escola.
- Obrigado. Quero achar o Museu Histórico.

Chico Franco se afasta, dobrando a esquina e entrando na Rua General Carneiro, depois de se descobrir dezenas de vezes.
As pessoas, porém, entram e saem apressadas do estabelecimento bancário, sem tempo para quaisquer intenções de gentileza.



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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