Sementes, árvores e gestos

Por: José Antonio Pereira

O germe, escondido na fruta, esperava pela terra e, desse modo, ansiava por seu destino: um dia ser árvore. Assim a fruta foi ficando na banca, não era exuberante como as outras, não chamava a atenção. Muitos a cutucavam, sentiam sua textura, examinavam a cor, deixavam ao largo. Preterida, ficava no seu canto. Murchava, diminuía. Já apodrecia quando o funcionário a separou para não contaminar outras e também para colocar as mais viçosas e brilhantes, a fim de que enchessem os olhos dos compradores. Ao jogá-la numa caixa, misturada a outras também rejeitadas, a vida, guardada na semente, poderia ter tido o seu fim. Duas mãos a salvaram: estenderam-se, escolheram-na, mostraram-na ao encarregado da limpeza. O homem perguntou se poderia levá-la, o rapaz respondeu que sim. Agradeceu, explicou:
— É pela semente.

Nem precisou andar muito. Ali perto, na pracinha próxima, Matheus o caroço. Os cuidados, a água, a germinação, a própria natureza se incumbiram de alimentar a vida ali contida e prestes a irromper. Depois houve sorte. Ninguém foi tentado a arrancar-lhe brotos e galhos. Aliás, durante anos, os que passavam por ali a ignovaram completamente. Isto até que foi bom, para que não fosse perturbada.

Vencendo todas as barreiras, encorpou. Sua copa hoje frondosa serve de abrigo aos passarinhos e a toda a cadeia que dela se beneficia. Frutificou enfim.

Continua anônimo quem a plantou. Isto não importa, ela está lá. Um gesto simples, antecipado por uma frase idem, ‘É pela semente”, produziu resultado extraordinário. Quem dera houvesse mais mãos que plantassem, além de árvores, gentilezas, serenidade, paz.



 

Marina Garcia Garcia Pedagoga e professora de Português

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras