Mais um ano ou menos um?

Por: José Antonio Pereira

Quantos anos você
está desfazendo?


Rubem Alves
in Aniversário


Fiz aniversário. O que dizem é que completei mais um ano de vida. Ou melhor, que é possível saber quantos anos eu já vivi. A palavra aniversário é latina e quer dizer “aquilo que volta todos os anos, que se repete todos os anos”.

Quantos anos você está fazendo? Essa é uma pergunta cuja resposta muda através do tempo. Há uma época, quando crianças, que gostamos da festa, dos presentes e queremos que nosso aniversário chegue logo. Em outro momento desejamos intensamente completar a idade que nos permitirá dirigir um carro, sair sozinho, ser independente. Depois, passados todos esses momentos que julgamos importantes, nos vemos frente a outra realidade. A vida começa a nos mostrar o seu perfil efêmero e nossos olhos divisam mistérios incompreensíveis. O aniversário passa a ser um momento de reflexão e, porque não dizer, de um certo medo. “Quantos anos você está desfazendo?” nos pergunta Rubem Alves na sua crônica Aniversário. Ele nos diz ser essa a pergunta correta, pois, na verdade, os anos que faço são exatamente aqueles os quais eu não tenho mais. É... eu não tenho 18 anos, eu não tenho 72 anos. Eu os tinha, mas eles já foram vividos, então não os tenho mais. Estive pensando sobre isso, na semana passada, quando fiz mais um aniversário. O que eu tenho ainda e o que não tenho mais?

Acho que concordo e discordo de Rubem Alves: dentro de uma lógica, eu realmente não tenho mais aqueles anos, pois já os vivi e eles se passaram; por outro lado eu ainda tenho algo que é o mais precioso, a vida, bem único e insubstituível. Dela eu não estou me desfazendo, pelo contrário, estou celebrando a sua presença em mim. Meu inspirar e expirar trazem a certeza de que ainda participo desse mistério da vida universal e estou aqui e agora, testemunhando esse tempo e esse espaço.

E assim eu me identifico com Rubem Alves quando nos diz mais adiante em sua crônica que “ao invés de soprar a vela, acender a vela...” E ele complementa: “o apagar das velas é um símbolo da morte. Aqueles anos que já morreram.(...) Com o acender da vela explode a alegria, não pelos anos que foram desfeitos, mas por aqueles que estão à espera para serem vividos.”

É a idéia da luz que se faz. Nossa vida é sempre luz enquanto existir. Então vamos fazer aniversário acendendo muitas velas: a vela para a saúde, para a alegria, para o amor, para a fé. Vamos inverter o ritual, pois se aniversário quer dizer aquilo que volta todos os anos, comemoremos o retorno daquilo que não morreu, do que é essencial.

No entanto, é preciso ter a consciência de que um leve sopro do Absoluto poderá, a qualquer momento, apagar todas essas velas.



 

Jane Mahalen do Amaral Membro da Academia Francana de Letras

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