Avatar

Por: José Antonio Pereira

No hinduísmo, o termo avatar designa a manifestação corporal de um ser imortal. A palavra deriva do sânscrito Avatãra, que significa “aquele que descende de Deus”, denotando as encarnações de Vishnu, divindade desse panteão. O radical sânscrito Aval pode simplesmente ser compreendido como ‘encarnação’, ou seja, qualquer espírito que ocupe um corpo de carne, representando assim uma manifestação divina na Terra. Na informática, o correlato Anatar representa figuras, clones virtuais criados à imagem e semelhança do usuário, permitindo sua ‘personalização’ no interior das máquinas e telas de computador.

Baseado nessas designações, numa reflexão crítica acerca de nosso tempo e numa série de conceitos teóricos, o filme Avatar, a maior bilheteria de todos os tempos, deve sair vencedor nas categorias técnicas do Oscar 2010.

O blockbuster de James Cameron, cuja construção consumiu quase uma década com um orçamento de 400 milhões de dólares, surpreende pelo design em seu mundo azul, pela tecnologia que faz explodir uma exuberante miríade de detalhes (os quais com o recurso 3-D inauguram profundidade espacial jamais vista), cores, brilhos e sombras na tela do cinema e, sobretudo, na concepção filosófica, em todo o enredo, que tem como palco o planeta Pandora, habitado pelos humanóides Na’Vi, no ano de 2154. O local possui unobtainium, um minério cobiçado pelos humanos, no caso, o ‘povo do céu’, os invasores (numa inversão de paradigma) que organizam expedições para sua extração. Como Pandora é um mundo cuja atmosfera é imprópria para os humanos, criam os avatares, à imagem das criaturas de pele azulada e com 3 metros de altura e semelhança com cientistas humanos presentes no projeto, híbridos, enfim.

Os Na’Vi são inteligentes e organizados numa sociedade de delineação tribal integrada em seu ecossistema. Pandora vai sendo aos poucos estabelecida para o espectador como organismo vivo, tateando a Teoria de Gaia, de James Lovelock, que em seu livro intitulado “Gaia” (mãe terra em grego), publicado em 1979, levantou a hipótese de que “toda a variedade de matéria viva na Terra, das baleias aos vírus, dos carvalhos às algas, poderia ser encarada como constituindo uma única entidade viva...” .

Há também, na figura da grande árvore sagrada, que parece respirar no filme, intertexto com a tese do alemão Alfred Wegener, o criador do conceito de que os continentes há muitos milhões de anos formavam uma única massa unida, a Pangeia (“toda a Terra”, em grego). E, ainda, inegável comunicação com as idéias de Fritjof Capra, que, especialmente na obra “A Teia da Vida”, retoma a visão de interligação ecológica de todos os eventos que ocorrem na Terra e da qual fazemos parte, de forma fundamental, descrevendo os inter-relacionamentos e as interdependências entre fenômenos psicológicos, biológicos, físicos, sociais e culturais - a teia que constrói a vida nesse planeta.

No périplo de Jake Sully, um fuzileiro naval que aceita o desafio de ocupar o lugar de seu irmão gêmeo morto, inscrevendo-se no programa Avatar, idéias como o uso responsável da ciência, a usurpação de territórios, a aculturação, a força mediadora das mulheres, a coragem como elemento de redenção não são discussões periféricas.

A maior realização de Avatar, afora suas inovações estéticas, é propiciar, por meio de narrativa assimilável pelo grande público e de um poderoso veículo de massas - cuja principal especificidade deve ser a de comunicar algo, a reflexão de questões que de outra forma continuariam confinadas nos meios científicos.

Serviço
Título: Avatar
Diretor e roteirista: James Cameron
Gênero: Ação, Aventura e Ficção
Duração: 150 minutos
Várias indicações ao prêmio Oscar que será entregue amanhã, domingo, com transmissão para o Brasil pela Globo e outros canais pagos.



 

Vanessa Maranha é psicóloga, jornalista e escritora

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