O candango

Por: José Antonio Pereira


Thereza Rici


 

José Bento era um homem jovem, alegre, conversador, amasiado com Josefina, uma morena bonita e sensual. Moravam numa casinha de três cômodos, fincada numa chácara pequena, fora da cidade e que herdara de seu pai. Ali José Bento plantava verduras, uma roça de milho, possuía uma vaca leiteira e muitas galinhas. Da horta, que trazia sempre bem cuidada, tirava o sustento da família, levando para a cidade a carroça cheia de verduras, onde as vendia, voltando sempre com sua carroça vazia. Uma vida simples.

Mas José Bento era ambicioso, seu sonho era ficar rico, ter um automóvel, uma bela casa, poder sair viajando pelo mundo e, quando manifestava esse sonho para a mulher ou para seus amigos, era sempre contestado. Josefina dizia-lhe que tudo que ela queria estava dentro daquela casinha, era dessa forma feliz e pedia para José Bento esquecer o sonho impossível, pois nunca conseguiria ser um homem rico. Mas ele continuava sonhando.

Numa das idas para a cidade com suas verduras, depois do trabalho, parou num boteco para uma cervejinha e um papo com os amigos. Conversa vai, conversa vem, José Bento acabou sabendo que o presidente do País estava iniciando os trabalhos de construção da nova Capital e que muitos patriotas e gente de todos os lugares estavam indo para lá, para trabalhar na construção civil. Estaria chovendo dinheiro para quem quisesse pegar no pesado.

O homem voltou para casa, guardou a carroça, e pouco conversou naquela tarde. Josefina, distraída com seus afazeres, não percebeu a mudança do marido. Mas no dia seguinte, José Bento saiu para o trabalho sem dizer uma só palavra e esse comportamento estranho preocupou Josefina que ficou matutando o que teria acontecido com seu marido. Quando ele voltou à tarde, a mulher quis saber o motivo de sua mudança de humor. Depois de muito insistir, José Bento contou-lhe que estava pensando em largar tudo e ir para a cidade que estava sendo construída, ganhar dinheiro, fazer seu pé de meia e depois voltaria para casa. Ela podia ficar e esperar por ele.

Josefina usou todos argumentos para impedir o marido de empreender a viagem para um lugar que ela não tinha idéia onde ficava, mas não houve jeito. José Bento vendeu a carroça, pegou um dinheirinho que havia guardado, comprou um caminhão velho e tomou o rumo da nova cidade Ao chegar, ficou assustado com o que viu. Muitos prédios sendo construídos ao mesmo tempo, muita gente trabalhando. Por isso, não foi difícil para José Bento arranjar o que fazer para ele próprio e para seu velho caminhão.

A mulher, em prantos por longos dias, viu-se sozinha. Com a necessidade de sobreviver, procurou trabalho na faxina das casas e, apesar da falta do marido, passou a viver da saudade e da esperança de que qualquer dia ele lhe faria uma surpresa.

Enquanto Josefina esperava, José Bento foi se dando bem na nova morada. Trabalhador, ambicioso, aproveitou tudo que pôde. Quando a capital foi inaugurada, quatro anos depois que ele chegou à cidade, sua vida tinha melhorado da água para o vinho. De serviçal no início, virou mestre das obras, passou a fazer parte do sindicato da construção civil, onde angariou grandes amigos. Não faltava trabalho e sua vida ia de vento em popa.

Josefina, que não tomou conhecimento da inauguração da cidade capital, sem notícias, imaginava como estaria o companheiro naquele lugar tão distante. Tinha ímpetos de tomar um ônibus e ir procurá-lo. Mas como o dinheiro era pouco, como era pouca a instrução, tinha medo de empreender uma viagem para tão longe. E à medida que o tempo foi passando, Josefina foi tomando consciência da ingratidão e da falta de amor do marido e resolveu esquecê-lo e mudar sua vida.

Mas José Bento, apesar de estar com uma boa situação financeira, boas amizades e até um emprego de meio período com um deputado importante da política nacional, não tinha felicidade. Faltava-lhe algo. Era a saudade que sentia de Josefina, da casinha simples e dos amigos daquela cidadezinha do interior, onde viveu desde que nasceu. Pensou que precisava matar a saudade. Voltar de vez, não queria. Havia conquistado muitas coisas, não podia desprezá-las, mas matar a saudade. Ah! Isso ele podia. E foi assim que num fim de semana empreendeu a viagem para casa.

Já era noite quando José Bento chegou à chácara. Não precisou bater à porta, pois esta estava aberta e vários vizinhos conversavam animadamente. Quando colocou a cara para dentro da sala, houve um espanto geral. Ninguém acreditava estar vendo ali José Bento, depois de quase dez anos de ausência., muito menos Josefina, que havia perdido as esperanças de vê-lo um dia.

Foi uma alegria geral, todos queriam saber como era a nova Capital do país. Depois de muita conversa, de explicar como funcionava as coisas por lá, de discorrer sobre a vida dura que enfrentou no início, acabou dizendo que na atualidade estava muito bem, era empregado de um deputado importante e que ganhava um salário compensador. Estava satisfeito e tinha realmente realizado seu sonho.

Foi quando seu amigo Geraldino perguntou:
- Você não tem medo de trabalhar para essa gente importante? Olhe lá, saiu no rádio e na televisão há pouco tempo que um desses empregados de deputado importante quis fazer bonito, falando de coisas que viu e ouviu, achando que estava fazendo uma coisa certa, e o que ganhou? O homem perdeu o emprego e hoje vive de bico. Com eles, “os importantes” nada aconteceu. Meu amigo, cuidado, a corda arrebenta sempre do lado mais fraco.

Ao que José Bento, respondeu:
- Geraldino, o problema é este: Você vê tudo, mas não enxerga, ouve tudo, mas não escuta, e permanece mudo, só abre a boca quando eles mandarem. Aí nada acontece, você continua lá, participando dos prazeres do poder.



 

Thereza Rici é advogada

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