Like a Rolling Stone

Por: José Antonio Pereira

Os versos de Bob Dylan e a música dos Stones de Mick Jagger fizeram a cabeça de muitos de minha geração. Confesso que, como beatlemaníaco, ouvinte do André Canto e seu Cavern Club, Jagger nunca foi meu predileto. Já a poesia de Bob Dylan sempre me atraiu: Like a rolling stone, Times they are a changing e Knocking on heavens door possuem letras fantásticas. Por isso uso o título de Dylan, para contar o acontecido numa cidadezinha mineira da região.

Batatinha e Douglinhas eram dois irmãos que, por fatalidade genética, tinham propensão a engordar. Na escola, os dois, separados por apenas um ano de idade, pareciam gêmeos. A molecada logo lhes pespegou os apelidos infalíveis de Rolha de Poço, Barrica, Tonelada, essas pequenas maldades da infância. Mas nenhum colou, acabaram com diminutivos que não combinam com seu tamanho extra largo GG.

Nunca quiseram sair da pequena cidade em que viviam, tornaram-se conhecidos de todos. Batatinha e Douglinhas continuavam céleres no rumo da obesidade mórbida, já que sua alimentação não era nada saudável, à base de torresminho, cerveja, medalhão de frango, essas comidinhas leves e nutritivas.

Inflaram. Os dois, ainda solteiros, viviam com a mãe, que continuava a fazer-lhes todas as vontades na mesa. Compraram um velho Fusca 78 cor de burro fugido e andavam para todo lado. Não podia haver festa, quermesse, baile, procissão, casamento, velório, lá estavam os dois esperando a hora dos comes e bebes. Chegavam a bordo do Fusca, Batatinha no volante e Douglinhas no passageiro, o braço gordo sempre para fora. Até o dia que teve o aniversário da dona Cremildes, a cabeleireira mais fofoqueira da cidade, velha conhecida de sua mãe. Convidados, os dois resolveram ir, nas posições tradicionais. Um ao volante, outro ao lado.

A pequena cidadezinha, com suas íngremes ladeiras, via o velho Fusca ranger para levar aquela tonelagem toda, Douglinhas com o braço roliço do lado de fora. O sucedido foi muito rápido, segundo testemunhas oculares.

Batatinha imprimiu a antiga marcha do Corinthians (a segunda) e logo depois engatou uma terceira, na rampa da igreja matriz. Ao fazer a curva, a porta do passageiro abriu e Douglinhas rolou para fora. Like a rolling stone. Foi rolando e quicando nos paralelepípedos até bater e esculhambar um portão de folhas metálicas da casa paroquial. O padre quase morreu de susto, achando que era um ataque suicida de algum aiatolá ou um terremoto marcando oito na escala Richter.

O carro continuou andando, Batatinha fez a curva e seguiu em frente sem perceber a queda do irmão. Na linha reta, tentou puxá-lo, pois o carro começou a adernar para seu lado. Foi somente aí que percebeu o ocorrido.

Douglinhas, cheio de escoriações, teve que ser guinchado ao pronto-socorro. Hoje, podem ser vistos na estrada que vem para Franca fazendo caminhadas para perder peso, foram convencidos pelo médico a mudar de vida. Ainda assim, não dispensam uma linguicinha no final de semana.


 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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