O bonde e o coronel

Por: José Antonio Pereira

A população também experimenta espécie de esclerose. Tanto é assim que pouquíssimas pessoas localizam hoje a Praça Barão de Luca, embora ela tenha sido muito freqüentada por sucessivas gerações, à época em que abrigava o Cine Santo Antônio, a loja Cerqueira Pucci, a bomboniere e tabacaria do Tito (ponta-direita de times da várzea da região).

Pois e naquela praça que brota a Rua General Teles, como se fosse continuação da Rua Simpliciano Pombo.

Chico Franco, depois de atravessar, com alguma dificuldade e imenso risco, a Avenida Santos Dumont, atravessou a pracinha e percorreu toda a Rua General Teles, chegou à Praça Barão da Franca. A caminhada longa fez o banco da praça parecer-lhe oásis, embora pedaço seu estivesse ocupado por um homem atarracado que o olhava sorridente e lhe endereçou convite.

- Vamos chegando, sô Chico. Senta aqui e descansa um pouco.
- Muito obrigado, jovem. Qual é sua graça?
- Sou o Ronan, o corretor. O senhor me conhece. Cansei de amolar o senhor e o Denis, lá no Cadastro da Prefeitura.
- Muito prazer, sou Chico Franco, seu criado.

A pergunta é desnecessária, pois ao se descobrir, Chico Franco mostra a cabeça molhada de suor, mas o corretor de imóveis é especialista em sustentar bate-papos.

- O senhor veio a pé lá da Estação?
- Vim, jovem. Aprenda essa verdade: o coração do homem está nas pernas. Não entro em ônibus. Faça chuva ou faça sol, eu ando a pé. Vou e volto a pé. Qual é mesmo a sua graça?
- Ronan.
- Chico Franco, seu criado.
- O senhor vem todo dia aqui na Praça?
- Vim pela Rua General Teles, pelo Viaduto. Grande prefeito, o Onofre Gosuen. Tampou o buracão, fez aquela maravilha de ponte, fez o Viaduto. Agora a cidade ficou pertinho da Estação. De primeiro, a gente só tinha a Rua dos Bondes e a Rua da Estação.
- Rua dos Bondes ?
- Estão querendo mudar o nome dela. Um vereador quer botar o nome de General Osório. Está errado. Bonde é progresso, é viagem, é liberdade e aventura, mas general lembra guerra, brutalidade e morte. Deus nos livre. A Rua da Estação, também. E estação lembra chegada de gente querida, de novidades...Agora estão falando em mudar o nome para Voluntários da Cidade. O jovem acha que tem cabimento? Tomara que transfiram esse general para a Itália. Qualquer hora vou lá na casa do Abílio Nogueira reclamar. Ele é Presidente da Câmara. Que ele mande o tal general ir comandar pracinhas...
- Calma, Sô Chico, calma... Me diga uma coisa: quando o senhor parou aqui, o senhor estava indo pra onde?
- Como é mesmo a sua graça?
- Ronan.
- Chico Franco, seu criado.
- O senhor estava só fazendo uma caminhada?
- Estou indo pra casa, está quase na hora do almoço. Eu moro atrás da linha do trem, preciso pegar a Rua dos Bondes e subir até chegar na Mogiana. Eu moro depois da linha de ferro.
- Ainda está cedo para o almoço.
- Eu vou a pé... faça chuva, faça sol, eu vou a pé. O jovem pode me indicar como chego na Rua dos Bondes?
- O melhor é o senhor fazer assim: desça reto aqui. Se o senhor não virar pra lado nenhum, o senhor chega lá na Estação.
O velho se descobre, agradecendo, e caminha na direção indicada.
Os olhos de Ronan ficam pregados nos passos vacilantes de Chico Franco, no seu terno, no seu chapéu Panamá, que desaparecem à medida que o velho se aproxima da Praça Nove de Julho, se mistura às pessoas.

Chico Franco se vai, mas o som da bengala fica martelando os ouvidos do corretor por semanas.

Arapongam nas madrugadas do homem passos da esclerose, trazida num carrinho de padeiro, numa carroça de leiteiro, num perfumado correio-elegante.



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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