Da bruaca dos gaúchos

Por: José Antonio Pereira

A touritos fracos todos peleam. Mas cavalo bom e homem valente, só na chegada a gente sente. De cobra não nasce passarinho. Filho de gato apanha rato. O galo, onde canta, aí janta. Quem com cães se deita, com pulgas se levanta. Gato que nasce em forninho não é biscoito. Guaipeca não se mete em briga de cachorro grande. Tem quem se faça de leitão vesgo para mamar em duas tetas. A formiga sabe que erva corta.E quando quer perder-se, cria asas.

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Brigam as comadres, descobrem-se as verdades. Amor, fogo e tosse, esconder ninguém pode. Pena que não escreve, amigo que não serve, faca que não corta, que se percam, pouco importa. Fogo de palha, chuva de verão e raiva de mulher têm pouca duração. Quem compra o que não pode, vende o que não deve. Quando o carancho está infeliz, não há árvore que o aguente. Cada homem, como o cavalo, tem o seu lado de montar. Encardido como peleia de caudilho. Firme como palanque em banhado.

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Gaúcho macho e grosso não come carne, rói osso. Só que pode ficar mais encolhido que tripa grossa na brasa. É bobagem espirrar em farofa. Quem quiser guabiju que sacuda o galho. De caldo requentado e de ar encanado, guarda-te como do diabo. Em tempo de guerra, mocotó é lombo. Há quem se faça de petiço para comer milho sovado. Gente muito lerda não experimenta pirão. Cuia curtida, mate bom. Mas não esquentes água para outro tomar chimarrão.

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Antes que cases, vê bem o que fazes. Não te arrisques a emprenhar china de delegado. Lembra-te de que quem ordenha bebe o apojo. Quem dorme na soga amanhece com fome. Quem não campeia não acha. O sol é o poncho do pobre. E coisas boas são namoro no começo e chuva em roça de milho.

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Fulano é grosso como rolha para poço. Está contente como cusco de cozinheira. Vive de cara amarrada como pacote de despacho. Isto está mais amontoado que uva em cacho. Parece faceiro igual a ganso em taipa de açude. Vive perdido como sapo em cancha de bocha. Silencioso e baixo como voo de marreca choca. Triste como fim de rodeio. Comprido como esperança de pobre. Repetido como reza do padre-nosso.

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Mais conhecida que parteira na campanha. Mais tranquila que água de poço. Mais enfeitada que penteadeira de china. Mais atrasado que risada de surdo. Mais informado que dono de funerária. Mais liso que sovaco de santo. Mais medroso que velha em canoa. Mais quente que frigideira sem cabo. Mais tradicional que pomada minâncora. Mais sério que defunto. Mais bonita que laranja de amostra.

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Comparações, conselhos, ditados, adágios, anedotas traduzem em todas as línguas estratos de sabedoria acumulados pela cultura popular. O olhar curioso e agudo retira do cotidiano rural ou urbano verdades que independem dos graus de latitude para se revelarem. Ditos espirituosos, muitas vezes irônicos, debochados, machistas, levemente sensuais ou francamente pornográficos, ficam guardados na bruaca coloquial dos gaúchos para serem sacados ao sabor dos fatos e das horas. O estoque é grande.
PS. Não adianta perguntar pela origem. Eles têm resposta na ponta da língua: “Quem revela a fonte é água mineral”.



Ps2. O leitor está procurando se lembrar do romance que transcreve muitas das frases acima? É Incidente em Antares, do gaúcho Érico Veríssimo.



Ps3. A peça O Analista de Bagé também inclui algumas.



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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