E o prazer da vitória?

Por: José Antonio Pereira

 


 

São muitas as histórias envolvendo advogados, juízes, promotores, jurados, escrivães, enfim, o mundo forense. Algumas são verídicas, outras fantasiosas e outras ainda totalmente inventadas. São histórias pitorescas, hilárias e, em sua maior parte, inverossímeis. O povo gosta desses casos, guarda-os na memória e os repete a cada geração. Assemelham-se às lendas que permanecem na memória coletiva e, ao serem relembradas, sempre aparecem com um detalhe a mais, uma cor mais viva, um tempero mais picante.

Suponho que muitos conhecem este caso acontecido, segundo dizem, numa Comarca do interior, numa região mais urbana do que rural. O Tribunal do Júri havia se reunido numa casa antiga, modesta e de grandes e inúmeras janelas. Em dado momento da sessão, quando o advogado usava de toda sua veemência na defesa do acusado, uma vaca introduziu sua cabeça por uma das janelas e mugiu. O advogado de defesa parou imediatamente o seu discurso e, voltando-se para o Promotor, disse com todo sarcasmo possível:
– Porventura Vossa Excelência pediu um aparte?

Em Franca, o Dr. Carvalho Rosa era considerado, à sua época, um dos advogados mais cultos, sagazes e , por isso mesmo, vitoriosos. Especialista em causas cíveis, não se interessava muito pelas ações penais. Contam que, certa vez, um dos seus clientes foi consultá-lo sobre uma questão corriqueira, banal, uma briguinha entre vizinhos. Carvalho Rosa aconselhou-o a fazer um acordo que era a melhor solução para o problema apresentado. Porém, seu cliente não se deu por satisfeito. Queria demandar, levar a questão para as barras do Tribunal e vencer o seu desafeto. Perguntou, então, ao advogado qual seriam as custas para se entrar com a ação pretendida. Carvalho Rosa, arguto como sempre e conhecedor profundo das fraquezas humanas, superestimou o valor da causa e os seus honorários. Assustado, o cliente questionou-o:
– Tudo isso, Dr.? O Sr. Não está exagerando?

E o velho e experiente causídico, calmo e sorridente, declarou-lhe:
– E o prazer de sua vitória? Isso também não conta?



 

Chiachiri Filho é historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo municipal e membro da Academia Francana de Letras

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