Toda a história do carnaval brasileiro

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Com estilo leve, direto, pleno de humor, André Diniz, autor de Almanaque do Carnaval, mostra que nossa maior festa popular é expressão lúdica, cultural, histórica e estética, não apenas espetáculo. Faz mais: convida o leitor a conhecer as manifestações carnavalescas ao som de seus principais gêneros musicais: samba, frevo, marchinha, axé.

Pelo telefone, alusão ao nome do samba de Donga e Mauro de Almeida, gravado em 1917, é o título que abre esta “enciclopédia”. Um dos primeiros parágrafos chama a atenção para uma frase do professor de literatura e crítico literário Antônio Cândido: “No Brasil, a música é o pão nosso cotidiano de consumo cultural”; e para outra de Goethe: “O Carnaval não é uma festa que alguém ofereça; é uma festa que o povo oferece a si mesmo”. Ambas conduzem o narrador à gênese e expansão da folia. Num momento de refinada análise, ele destaca algo que já deveria parecer óbvio, mas até então pemanecia meio difuso em nosso imaginário: “não há evolucionismo, no sentido civilizatório do termo, quando traçamos o Carnaval na linha do tempo”. E ilustra com dois exemplos: a bexiga com água dos subúrbios, o proibido lança-perfume e o polêmico spray de espuma são apenas substitutos do limão-de-cheiro dos entrudos; e os precursores do surdo de marcação, usados hoje nas escolas de samba, descendem das marretadas no bumbo que caracterizava os zé-pereiras, lembrança lusitana de procissões da região do Minho, introduzida no Rio de Janeiro no começo do século 19.

A escolha do primeiro samba gravado no Brasil, para começar a contar a história do Carnaval brasileiro, tem muita importância pelo que simboliza. Depois de Pelo telefone, e da popularização da marchinha e do frevo, o registro de música carnavalesca passou a ser, no final da década de 1920, um produto de destaque das muitas gravadoras já instaladas no País. Com o passar do tempo, frevo, marchinha e samba viraram sinônimos de Carnaval; mas com a ascensão definitiva do samba-enredo, na década de 1960, a marchinha e o frevo perderam a competitividade no meio fonográfico como gêneros da folia. Da mesma forma o samba-enredo carioca perderia espaço para o ritmo baiano conhecido por axé nos anos 80.

Falando dessas substituições, para as quais concorreram o rádio e os programas de auditório, o teatro de revista, o cinema nacional e a televisão, André Diniz vai construindo o livro, resultado de pesquisas exaustivas. Seu trabalho não se resumiu a elas, o que já seria meritório. Ele avança por entre o extraordinário volume de informações para colher impressões e fazer sua leitura dos fatos. Mostra que os meios de comunicação foram determinantes no processo de transformação da festa: “o que o cinema fez com o rádio, retirando dele a primazia em relação aos sucessos do Carnaval, a televisão faria com o cinema na década de 1970; neste novo formato, o televisivo, não caberiam mais as marchinhas, os frevos, outros gêneros carnavalescos. E da era dos sambas-enredos, a televisão migrou para a era do axé.”

De uma riqueza inquestionável, Almanaque do Carnaval traz muitas revelações sobre nossos artistas, nosso povo, nossa musicalidade, nossa capacidade de criar. Há centenas de histórias que por não estarem necessariamente encadeadas, podem ser lidas de forma autônoma. Destaco uma que me emocionou pelo que traz de emblemático na junção de nossas maiores manifestações culturais: o Carnaval e o futebol. No capítulo 2, Mamãe eu Quero, com o subtítulo Touradas em Madri, o leitor é remetido ao dia 13 de julho de 1950, para dentro do Maracanã, que acabara de ser inaugurado. Copa do Mundo, estádio lotado, torcida confiante, depois de vencer México, Iugoslávia e Suécia, o Brasil enfrenta a Espanha. No quarto gol verde-amarelo, os torcedores vão se levantando e começam a cantar: “Eu fui às touradas de Madri/ Pararatibum, bum, bum/ e quase não volto mais aqui/ pra ver Peri/ beijar Ceci...” São 180 mil vozes se aglutinando, crescendo, enchendo o estádio. Anônimo, no meio da multidão que canta em uníssono, acompanhado apenas pela menina Maria Cecília, sua filha, um homem chora mansamente. Era Braguinha, o autor da música. Por muito tempo ele pensou ter sido aquela a maior emoção de sua vida. 34 anos depois viria outra. Na inauguração do sambódromo do Rio de Janeiro, ele foi tema da Estação Primeira de Mangueira. Ágil aos 86 anos (viveria mais 13, morreu em 2006), desfilou cantando em cima do principal carro alegórico, Yes, nós temos Braguinha, alusão a uma de suas mais conhecidas músicas, Yes, nós temos banana... O homem tinha virado samba e mito em vida. Maior homenagem haveria?

De muitas histórias do tipo também é feito este livro inspirador não apenas para quem curte Carnaval, mas para todos que procuram subsídios para entender cada vez melhor a alma brasileira.

Serviço
Título: Almanaque do Carnaval
Autor: André Diniz
Páginas: 268 páginas
Editora: Zahar
Onde comprar: submarino.com.br



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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