O abraço

Por: José Antonio Pereira

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“Espera no Senhor, sê forte”. Foi esta a frase que ele me disse num dia em que minha alma estava sombria e o sorriso havia se escondido, soterrado por avalanche de acontecimentos desastrosos.


 Não pretendo fazer nenhuma alusão ao poder e à bondade divina, isso me é inquestionável; quero antes falar sobre o possuidor destes olhos doces e coração generoso. Embora tão jovem, me ouvia e tinha o dom de me acalmar, me mostrar outras possibilidades.


Aconteceu em uma segunda-feira, como todas sempre recheada de desprazer. Aquela não seria diferente. O exame já estava marcado, teria que me deslocar até a cidade vizinha para fazer uma sofisticada e custosa análise. Os remédios já não faziam tanto efeito e o médico achou por bem aquele procedimento para que o tratamento fosse mais eficaz.


Diante deste problema, os outros pareciam banais. Deixar a casa que construíra com tanto sacrifício, acomodar-me como desse em um canto qualquer, ver os filhos partindo para construirem sozinhos seus próprios destinos, perceber o afastamento das pessoas queridas. Principalmente nas datas festivas a solidão gritava alto. Sempre fora à minha casa que todos acorriam alegres para as comemorações e, agora... O vazio era coisa de se lamentar. Tínhamos sido felizes um dia...


A buzina do carro lá fora revelava impaciência. Melhor deixar as elucubrações e vestir a camisa da realidade. Esta assomava impiedosa demais, sem deixar espaço para queixumes. Sempre achamos que nada acontecerá conosco, que somos filhos diletos de Deus e nada nos atingirá. As coisas ruins podem acontecer na casa do vizinho, do tio distante; sim, isto é possível, mas conosco? Não, é claro... Como somos tolos!


Chegamos. Tudo parecia demorado e cansativo, as filas imensas... Enfim, o diagnóstico cruel. Até então havia uma réstia de esperança que fora tragada pela funesta verdade.


Foi então que meus olhos se encontraram com os de dele e pude ver que havia valido a pena. A frase dita assim, de modo tão carinhoso e espontâneo, vinda dele que nem religioso era, porém de grande espiritualidade, era o bálsamo que me fazia ver colorido o que antes não tinha percebido.


Assim sorrindo pensei: “Tenho a fortaleza de um espelho quebrado”. Ali, naquele momento, queria mesmo era colo. E ele me ofereceu seu amor e solidariedade. Estreitou-me num caloroso abraço e aquele gesto valia todo tesouro do mundo. Se ele, humano, portanto imperfeito, agia daquela forma, imaginei que Ele não me deixaria também. O dia estava quente, abafado. Fomos tomar um chopp, ou alguns, num bar conhecido, e vislumbramos dias melhores.


 “Sê forte”.
 A frase retumbava dentro de mim. Eu sempre fora até então. Por que haveria de ser diferente?
 

Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português

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