Os Miseráveis

Por:

Por que eles não saem?


Por que eles insistem em morar ali?


Estas eram as insistentes perguntas feitas por todos que assistiam à catástrofe ocorrida no Rio de Janeiro. Não são perguntas difíceis de serem respondidas. Eles moram naqueles barrancos e de lá não se arredam porque são pobres. Pobres: esta é a terrível palavra que define a tragédia .


Em muitas cidades a pobreza é arrastada para a periferia onde se encontram as baixadas alagadiças e pantanosas ou, então, as boçorocas que desmoronam um pouco mais a cada chuva. No Rio, ela é alçada aos morros. Dos morros, os favelados vêem a beleza das praias, do céu, do mar, da terra e dos donos da terra que desfilam despreocupadamente com os seus carrões luxuosos, as suas roupas de grife, os seus perfumes importados, os seus vícios caros. Para cima dos morros, eles levam os restos da civilização, as migalhas de uma vida de conforto e fartura. Apossam-se dos terrenos, constróem seus casebres nas encostas íngremes e perigosas, procuram teimosamente sobreviver. Pelo menos uma vez por ano eles descem ao som das cuícas e tamborins, cheios de brilhos e adornos, fantasiados de reis e rainhas. Descem também algemados nos camburões da polícia ou mortos, enlameados pelos detritos das enxurradas e pelos chorumes dos lixões. Não descem por vontade própria. Não querem deixar o seu teto miserável, os seus móveis e utensílios, únicos bens que conseguiram, restos arrancados de um mundo de sonhos com suas mãos assalariadas. Não querem se distanciar dos seus parentes, de seus amigos, dos seus conhecidos, dos relacionamentos sociais que se formaram ao longo do tempo e que lhes servem de referência , de proteção e segurança. Eles não confiam nos governos e nos políticos que lhes oferecem conjuntos habitacionais que nunca são realizados da forma em que foram prometidos. Não acreditam nas instituições: têm um comportamento e uma forma de vida próprios.


Lembro-me de uma música dos anos 60 que dizia:


”Podem me prender, podem me bater


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Daqui do morro eu não saio não...”
 
 Pobre Rio! Pobre Brasil! A miséria é a nossa pior epidemia e a ignorância o seu efeito colateral.

Há muita coisa ainda por se fazer em nossa Pátria. Falta dinheiro? Falta. Mas faltaria muito menos se os recursos públicos não fosse gastos em propinas, funcionários fantasmas, mensalões e panetones.
 
 
Chiachiri Filho
Historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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