Letras

Por: José Antonio Pereira

Vou levar muito tempo para aprender as novas regras da ortografia, que os sábios dos vários países de língua portuguesa nos impuseram, se é que vou aprender. Ainda bem que os programas de computador ajudam bastante, mas mesmo assim terei que atualizá-los. A única coisa que aprendi até agora é que ideia não tem mais acento. Logo estarei escrevendo como nos tempos da pharmacia do Orestes, cuja lembrança ainda está lá no chão, na calçada da rua Júlio Cardoso, perto da praça João Mendes. O grande jogador de futebol Capeta, que mora ali perto, na Líbero Badaró, já pediu uma crônica sobre a praça e seus personagens, mas pouco a freqüentei para falar sobre isso, sei apenas que no antigo largo que ali existia foi aplicada a pena de morte por enforcamento em Franca, no século XIX. Isso é coisa pro Chico Franco, aquele condenado que fica andando e perguntando coisas sem parar, confundindo lugares e datas que ninguém lembra mais.


Certamente, aqueles agrupamentos de marmanjos acostumados a tomar café e colocar a conversa em dia na padaria Estrela estão muito mais aptos a contar histórias da praça que eu, com seu monumento do padre e do índio cada vez mais cercado por carros, virou só um lugar de passagem, de malabaristas, de distribuidores de publicidade e jovens universitários que, ao invés de fazer algum trabalho voluntário de cunho social para melhorar o país, contentam-se em brincar de pedintes maltrapilhos a coletar moedas que certamente gastam em bebida.


O fato é que a mudança ortográfica veio para ficar e, se temos que nos acostumar com ela, mais importante é estimular o gosto pela leitura. Minha mãe, por exemplo, que passou por outras mudanças ortográficas, só estudou até o quarto ano primário e, mesmo assim, lê diariamente o Comércio, revistas e livros. Ela já me contou a vez que passou vexame porque o meu irmão passou-lhe um pito porque ela falou, na frente de outros colegas dele, que podiam “intochicar” se continuassem a mexer com umas tintas que havia lá no porão de casa. Puro elitismo, pois mesmo intelectuais metidos a besta como FHC falam e escrevem “errado” de vez em quando.


Mas a melhor mesmo foi a que aconteceu com um conhecido nosso. O pai dele, bem idoso, tinha dificuldades para cortar as unhas do pé. A mãe, já com dificuldades na visão, também não tinha como fazer isso, o jeito foi contratar os serviços de um especialista, um podólogo. Um dos irmãos foi levá-lo ao profissional para cortar as unhas, que ficava longe, lá pras bandas da Santa Rita. Neste dia, o conhecido nosso foi visitar o pai e perguntou para a mãe: “ué, mãe, cadê o pai?”.


A mãe, sem pensar, respondeu na lata: “ah, saiu, seu irmão levou seu pai para cortar as unhas num pedófilo”.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor               

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