Chopin, 200 anos

Por: José Antonio Pereira

Um país que coloca no topo das paradas um insulto auditivo chamado Rebolation, tem por outro lado concertistas do nível de uma Sylvia Thereza, que esteve em Franca apresentando-se no Teatro do Sesi, na semana passada, dentro da série Pianistas - Chopin 200 anos. Contrastes sempre fazem pensar. Se há uma pressão avassaladora de produtos comerciais para preencher o que se convencionou chamar nicho de cultura popular, existe também uma reserva de músicos para quem a arte está acima dos ditames do mercado. Eles resistem bravamente junto com seu público.


O mundo comemora em 2010 o bicentenário de nascimento de Chopin e são muitos os concertistas brasileiros unidos nas homenagens que se prestam ao gênio. Um deles, Nelson Freire, lançou neste ano um CD que tem sido disputado pelos fãs. Outra, a portuguesa Maria João Pires, que escolheu nosso país como seu domicílio, arrancou aplausos demorados na Sala São Paulo, também no final de março, numa apresentação impactante. E aquela menina fantástica, Cristal do Espírito Santo, prodígio que a TV Globo resgatou de uma vida miserável e até já enviou à Europa, igualmente reverencia o compositor.


Chopin nasceu na Polônia, mas seu pai era francês. Não são poucos os biógrafos que viram nestas origens alguma explicação para a mistura singular de melancolia eslava e elegância francesa na arte do artista que, como o austríaco Mozart, assombrou os meios palacianos aos cinco anos, tocando e compondo. Como pianista, que aprendera com a mãe as primeiras lições, tornou-se antes dos quinze o virtuose preferido dos salões aristocráticos poloneses.


Suas próximas duas décadas, vividas na França, mostrariam a influência de um compositor inglês, Field, a quem Chopin sempre se diria grato; de um amor complicado, pela ficionista francesa Aurore Dupin, que usava o pseudônimo George Sand; e da tuberculose, que lhe sinalizaria com frequência a efemeridade da existência. Estas circunstâncias, somadas à sensibilidade quase feminina, grande força espiritual e original condição de conferir poesia a formas de música absoluta, fizeram de Chopin o criador de uma arte autoral, atemporal, eterna.


 Que ouvido passa ileso pelos primeiros acordes de seus noturnos? Que coração permanece indiferente diante dos prelúdios, baladas, polonesas, mazurcas, barcarolas? Que alma não se movimenta ao som dos seus schierzi? Estas últimas, composições que criou estendendo ao máximo as possibilidades de uma forma que de início era apenas uma “brincadeira” (tradução para o italiano scherzo), foram transformadas por sua inspiração em peças independentes, caracterizadas por um clima dramático, em tudo diferentes do que eram até então - apenas o movimento de uma composição.


Se a música é a alma da geometria, como a definia o poeta Paul Claudel, Chopin foi a melhor tradução do exercício da técnica aliada à revelação de estados de espírito muito singulares. Na história da música, seu papel de inventor de novas harmonias e de uma arte extraordinária da modulação é incontestável. Depois de Beethoven, é o compositor para piano mais tocado no mundo.


Morreu aos 39 anos, no número 12 da place Vendôme. Há uma plaquinha em bronze na fachada, avisando ao que passa na calçada que ali viveu seus últimos dias Fréderic François Chopin. Seu túmulo, no Père Lachaise, sempre tem flores, até nos dias de inverno mais cruel.


País de Primeiro Mundo é assim. Preserva a lembrança dos memoráveis.
 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço

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