No vai e vem dos anos

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Vai o ‘velho’ e vem o ‘novo’. Será? Será que o ‘velho’ nos deixa e leva consigo as esperanças perdidas, os insucessos da vida, as decepções individuais e coletivas, a corrupção, a violência e a hipocrisia de uma sociedade doente? Será que o ‘novo’ traz consigo um novo mundo, um novo homem, uma nova vida? Que bom seria se a cada Ano Novo surgisse também um novo mundo por nós sonhado, idealizado, planejado, desejado e imaculado. Que bom seria se pudéssemos apagar o passado, aplacar os ódios, esquecer as ofensas e humilhações. Que bom se ressurgíssemos a cada Ano livre das peias, dos remorsos que nos atormentam, dos compromissos que nos subjugam. Que bom se nascêssemos com o Ano Novo, novinho, livre das teias e das poeiras do Ano Velho.

Podemos sonhar, almejar, imaginar; porém, não dá para esquecer. Nós temos a nossa história, o mundo tem a sua história e é ela que nos define, que nos situa, que nos dá identidade. No vai e vem dos Anos, a continuidade permanece. O Ano Novo é uma expectativa. O Ano Velho, uma realidade . Com base nessa realidade idealizamos o futuro. Sem o ‘Velho’, o ‘Novo’ não existiria. Sem o ‘Novo’, a continuidade seria interrompida. Sem a continuidade, dá-se a consumação dos tempos e o advento da eternidade.

No vai e vem dos Anos, o ‘velho’ nunca morre. Ele permanece vivo e atuante. Ele funde-se, integra-se, continua. Não há como esquecê-lo, escondê-lo, abandoná-lo, rejeitá-lo. Ele fica, fica para devorar o ‘novo’. Devora-o com voracidade. Vence, sempre vence.

No vai e vem dos anos, nós ficamos mais velhos, mais sábios, mais estúpidos, mais sonhadores, mais insensíveis. Enfim, permanecemos os mesmos: idênticos a nós mesmos, iguais a nós mesmos. A continuidade nos liga, nos consolida, nos configura. Não nascemos a cada ano, simplesmente, sobrevivemos.



 

Chiachiri Filho é historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo municipal e membro da Academia Francana de Letras

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