Pontos na paisagem

Por: José Antonio Pereira

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Respirando o ar quente, suado, extenuado, sacola pendurada nos dedos, com a outra mão procurava livrar-se da poeira que lhe entrava na roupa, nos olhos, nos poros. E o estirão se alongando. Viu o casebre com pequeno alpendre, arriado, cochilante. Aproximou-se, bateu na porta e arriou-se no banco tosco, no alpendre. Sacola ao lado, abanou-se, desabotoou-se, estirou as pernas, quase cochila. Ali ficou, entregue.


Suspirou fundo, levantou-se, olhou demoradamente o estirão em todas as direções. Só vento, poeira e a árvore desgalhada ao lado do casebre. Bateu forte na porta e ela se abriu. O pote, não muito distante, caneca ao lado. Bebeu a água salobra até se fartar. Olhou em volta. Alguns tamboretes. Nenhum armário, louça ou mesa. Uma rede entrouxada, pendente do armador.


Balançou a cabeça:
- De quem será isto?


Olhou longamente, através da janela, o estirão e a poeira fina navegando no silvar do vento. Fugindo de tudo e com saudades dela armou a rede puída. Deitou-se, suspirou fundo:
- Depois da desgraça feita qualquer lugar serve.


Levantou-se e jogou sobre um dos tamboretes os sapatos de solas gastas, o resto de meias, e, quase despido, estirou-se melhor e coçou o corpo todo.


Adormeceu.


Acordou com os solavancos no punho da rede. Abriu os olhos, estremunhado e perplexo:
- Você veio?


Ela, ali em pé, rota, esquálida e muda.
- Como me encontrou?
- Segui seu rumo.
- Ah.
- De quem é esta casa?
- Não sei.
- Por que você fez aquilo?
- Precisava.
- Que horror.


Apenas fechou os olhos. Ela tossiu:
- Posso me deitar um pouco com você? Estou morta.


Ele lhe deu espaço na rede e ela, pequena trouxa no chão e o vestido uma nuvem de pó, acomodou-se ao seu lado.
Apertou a mão dela:
- Durma um pouco.
- Não vou conseguir.


Nada respondeu e ouviam apenas o silvar do vento lá fora. Silvava, silvava, silvava...
Acordaram com a claridade da manhã entrando pelas frinchas da porta e da janela. Ele esfregou os olhos:
- Não apareceu ninguém.
- Vai ficar aqui?
- Vou continuar.
- Não quer voltar?
- Nunca.
- Que horror.
- Esqueça.
- Estou com sede. Tenho pão.
- Ali há um pote e uma caneca.


Ela levantou-se. Voltou ajeitando o vestido. Deu-lhe um pedaço do pão:
- Não trouxe nada?
- Só umas coisas na sacola.
- E eu esta trouxa. E uns pedaços de pão.


Beberam quase todo o resto da água. Ajeitaram-se e saíram para o tempo. Envolveram-se no descampado. Ele sopesou a mochila, ela ajeitou a trouxa no braço.
- Por que você veio?


Ela voltou a ajeitar a trouxa:
- Não sei.


Olhou-a nos olhos:
- Vamos?
- Para onde?
- O fim do mundo não deve estar tão longe assim...


Saíram caminhando lentamente.
Dois pontos que se foram perdendo na paisagem, sibilante de vento e de poeira navegante.

 

Caio Porfirio
Escritor,  crítico literário  e secretário administrativo da União Brasileira de Escritores

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