Rito de passagem nas férias

Por: José Antonio Pereira

À Deriva foi notícia, ano passado, no Brasil e na Europa, onde se destacou na mostra paralela Un certain regard, do Festival de Cannes. Ao fim da apresentação, em maio, foi aplaudido durante cinco minutos. Também conquistou comentários elogiosos nas revistas e sites especializados. É o mais recente filme de Heitor Dhalia, que surpreendeu o público que o tinha conhecido em Nina e O cheiro do ralo, ambos de tons pessimistas, quase misantropos. À Deriva é esperançoso e, apesar das angústias inerentes a um relato que traz para primeiro plano o processo de ruptura de um par, acaba fazendo o elogio aos afetos, às transformações e à vida.


A história é simples e recorrente. Um casal de classe média alta, ele escritor francês radicado no Brasil, ela professora com fortes traços de alcoólatra, passa férias na sua casa de praia. Neste cenário se desentendem, brigam, discutem, separam-se. Na companhia deles estão os três filhos, a mais velha de nome Filipa,14 anos.


 Ao contar a história do casal, o diretor, que também assina o roteiro, o faz pelo olhar da adolescente. A câmera gruda nela e a acompanha o tempo todo, até debaixo d’água. As imagens de Búzios são um dos pontos altos na fotografia deste filme que privilegia mais cinzas que azuis. Os outros são a trilha sonora na sugestão do ritmo narrativo e das emoções dos personagens; o figurino assinado por Alexandre Herchcovitch, que pesquisou a moda praia dos anos 80; a direção de arte de Guta Carvalho, em precioso resgate de elementos importantes na definição do clima oitentista como câmeras fotográficas, brinquedos, objetos decorativos e até cardápios. O sabor de época marca o filme do começo ao fim, contribuindo para o traço nostálgico.


Desde as primeiras cenas, Filipa (Laura Neiva, saída do Orkut, perfeita no papel) acompanha ansiosa o conflito cada vez mais tenso entre os pais, Mathias (Vincent Cassel, ator franco-brasileiro com alguma bagagem) e Clarice (Débora Bloch, cujos imensos recursos são bem evidentes nos palcos e nas telas) ). Nos dias que deveriam ser apenas de lazer, a garota testemunha o adultério do escritor com uma turista, Ângela (Camille Belle, numa interpretação sofrível); flagra cenas deprimentes de bebedeira da mãe; percebe a fragilidade dos irmãos; interage com os amigos de praia, num movimento especular onde procura se reconhecer. Assim, ao mesmo tempo em que flagra o pai com a amante, descobre o sexo com o amigo Artur e faz sua iniciação. São estas as duas linhas mestras do filme, que tem final surpreendente. Dhalia consegue levar o espectador numa direção única até os minutos finais, quando gira 180 graus, num movimento inusitado e perturbador. A vida não é tão simples como parece; a aparência esconde a essência da maioria das coisas; a superfície nem sempre retrata o fundo: será também através de filha que a verdade da saga vivida pelos pais se tornará conhecida do público.


A protagonista já não será mais uma menina ao término das férias. Viu a dor dos outros, sentiu a própria. Descobriu que sua percepção sobre a vida alheia (e a sua vida) é muitas vezes falha. Lidou com paixões obscuras como ciúmes, violência, raiva. Perdeu a inocência, experimentou as delícias do sexo, fez o seu rito de passagem para o mundo adulto. Por isso alguns críticos consideraram À Deriva um filme com pé bem firme na tradição literária do romance de formação, chamado pelos alemães Bildungsroman e pelos de língua inglesa Coming-of-age. O primeiro do gênero, que se tornaria febre no século 19, foi O aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe. A proposta do ficcionista alemão, depois copiada por muitos, foi mostrar que para conhecer a si mesmo um jovem precisa sair de seu cotidiano e empreender uma viagem que acabará sendo de busca de si mesmo.A travessia de um lado a outro é marcada por descobertas e sofrimentos, convívios e desajustes, desejos e frustrações. É o que acontece à Filipa antes de voltar à cidade, no final do verão que marcará sua vida.


Contado como se fosse um retrospecto sem o ser, o relato intimista é memória e nostalgia de um tempo de importância extraordinária na vida de todas as mulheres. Muitas poderão se reconhecer nesta história de temática universal.

Serviço
Título: À Deriva
Diretor/Roteirista: Heitor Dhalia
Ano: 2009
Gênero: Drama
Duração: 120 minutos
 
 
Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras