Tubarão

Por: José Antonio Pereira

O homem de chapéu e terno branco, que se apoia na bengala, não atenta para os olhares curiosos que, de quando em quando, lhe são endereçados. Alheio às pessoas que vão e vêm, indiferente ao burburinho, fica um tempão ali, atrás dos carros de aluguel que se enfileiram diante do prédio da Associação do Comércio e Indústria de Franca.


O velho não está imóvel de todo. Sua cabeça realiza movimento lento, da esquerda para a direita, acompanhando o passeio dos olhos. Eles visitam a Casa das Novidades, logo substituída na retina pela Casa Higino Caleiro. Poucos graus mais e os olhos aportam no Banco do Estado de São Paulo, onde trabalham o jovem Maurício Sandoval Ribeiro, o meia-esquerda Chicaroni e o Emílio Bruxelas.


Neste momento, uma buzina estridula muito perto, o barulho acelera a viagem. Num átimo e os olhos já desembarcam na esquina da Rua Major Claudiano, onde o homem velho vê, com nitidez, a Farmácia Normal, em frente à casa do doutor Ricardo Caleiro Pinho e ao cartório do Juquinha Vilhena.


O velho começa a andar em direção à Rua Marechal Deodoro, enquanto seus olhos andam longe e depressa. Entram na Casa Pólo, conversam com o Esmeraldo Ferro que atende fregueses. Entram na Livraria do Commércio, com dois emes, falam com o Caio, jogador do Internacional e gerente da loja.


Cala-se de súbito a bengala. Interrompem-se os passos, tudo emudece para dar passagem ao homem que entra no Bar Tubarão, na calçada em frente.


 Uma borracha apaga névoas.
 É uma voz e uma presença estranha que reconduzem a vida a seu normal fluxo.


- Sô Chico, Sô Chico. O senhor está querendo atravessar a rua?
- Einh?
- O senhor quer que eu o ajude a atravessar?
- Não, não.
- Ah,eu pensei... Estava vendo o senhor aí parado, faz um tempão...
- Qual é a sua graça?
- Ora, Sô Chico, sou o Jovasssi... O Jovassi, da rádio...
- Muito prazer. Chico Franco, seu criado.
- Estava olhando o Bar Tubarão, o peixe do luminoso... uma beleza... grandão...
- Pois é, Sô Chico, mas acabou tudo. Agora é uma farmácia no lugar do bar.
- Mas eu lembro quando o bar era do Paulo Moscardini. Ele tinha comprado o bar do Irineu Teixeira de Oliveira.

Lembro tintim por tintim, o Paulo comprou em 1957. Naquele tempo, a rapaziada ficava passeando na praça até a hora de começar o cinema. Então, todo mundo guardava o paletó e o guarda-chuva aí no Bar Tubarão.
- Paletó ?


É, todo mundo usava... Ninguém entrava no cinema sem paletó e gravata... Era o costume. Eu não esqueço nada, lembro quando o Paulo vendeu o Bar Tubarão pro Sinésio, pro Mário e pro Antônio. Depois o Antônio Francisco Filho comprou as partes dos sócios, ficou dono sozinho. Todo mundo chamava ele de Português ou de Ibiraci. Depois ele vendeu o bar para o Lázaro Martins Ferreira.


- É, mas tudo passou, Sô Chico. Acabou o Bar Tubarão.
- Será que o lbiraci já morreu?
- Morreu nada, Sô Chico. Está vivinho da silva.
- Está, é?
- Está. Ele também se formou na escola do Barão de Drumond, trabalha todo dia ali na Praça Barão.
- Qual é a sua graça, jovem?
- Jovassi. Jovassi Correa...
- Muito prazer. Chico Franco, seu criado.
- O senhor está bem?
- Estou, mas peço licença ao jovem. Eu preciso ir, eu moro longe, atrás da linha do trem. Até mais.
- Até mais, Sô Chico.


Agora quem fica plantado na esquina é o radialista que observa o caminhar vacilante de Chico Franco, o seu terno branco, o seu chapéu Panamá, enfim o conjunto que o radialista conhece há mais de meio século e que definha aos poucos, junto com uma parte da cidade.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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