Noturnos

Por: José Antonio Pereira

“Noturno significa um canto livre da sua intimidade, por meio do qual conta uma história íntima que o
músico não poderia exprimir
de outra forma.”

 

Li de Jeremy Sipmann, no libreto do CD Nelson Freire - Chopin - the nocturnes, 2010, Decca - que Chopin (1810-1849) teve como maiores influências os compositores Bach e Mozart. Não há semelhança na sonoridade entre os três compositores. Não ouço em Chopin a luz solar e cristalina, elevada, como quando ouço Bach, nem um tempo variável, como quando ouço Mozart, entre abismos e cumeeiras. Mas há, de fato, uma similar pureza redonda nos três. Os Noturnos são lunares, para mim tristes...redondos...andam em roda, em improviso. Doces, líricos. Desde pequena, ao escutá-los fico introspectiva, calada, funda, calma, alma-lago que não treme com nenhuma brisa. Como dia nublado, céu todo cinza e friozinho gelado soprando, um domingo, deserto, sem zunzum de carros, sem latido de cachorro, sem risada de criança.

(Nelson Freire, nosso pianista prodígio, mineiro de Boa Esperança, declarou: “não imagino minha vida sem Chopin”. Ganhou o prêmio Edison (Holanda) pela gravação dos 24 Prelúdios de Chopin. “com sua música tudo soa muito natural, espontâneo, os sons vão direto ao coração das pessoas. Mas, para o pianista, as obras exigem um trabalho sem igual, entrega completa e muito tempo de dedicação. Há muitos paradoxos em sua obra.(...) elementos como poesia, drama, sedução, sensualidade”).

Os Noturnos me inspiram sentimento de “solidão-junto”, estar só em meio de muitas pessoas, em um velório, rodoviária, aeroporto, ou um cais de porto, em um lugar de despedidas - alguém vai partir para bem longe e não sei quando volta ou se volta. Há sorrisos, mas eles vêm de um lugar doído. Há ternura, mas ela se reveste de uma aveludada ânsia de contato, um abraço que não quer se desmanchar. Um choro que não seca, uma sensação de agradável incômodo, feito uma coceirinha.

Suas frases musicais são densas, como os abismos repentinos em que Mozart nos joga para depois nos guiar em uma estrada mais alegre, mais ensolarada. Mas Chopin não sai do abismo... não me mostra estrada alegre depois...
A melodia caminha, rodeando, harpejando, cascateando, como o rio continua fluindo, vai em frente, e sei que não vou com ele, sei que vou ficar e o rio vai embora, lento, rápido, cascateando, serpenteando, sumindo...

Fico tão dentro de mim quando ouço os Noturnos, que os ouço homeopaticamente, uns quatro ou cinco de cada vez. Depois volto e ouço mais, muitas vezes os mesmos. Nelson Freire gravou este CD como comemoração de 200 anos de Chopin, com 20 Noturnos (compostos entre 1883-1849). Para ele “chopiniano” significa misterioso.

Um deles me faz chorar desde criança, o Noturno, em Mi bemol, op. 9, n.2. Eu o ouvi, primeira vez, tocado por uma jovenzinha (pré-adolescente se diria hoje), que alcançava este estado meditativo, uma prima muito querida com nome de anjo. Ficava sentadinha, escutando... uma vontade de chorar, nos meus oito, nove anos, sem saber o porquê. Ela, a pianista, talvez doze, treze. Mulher, porque o corpo de mulher já vai ficando todo pronto por esta idade.

(a alma, como é que a alma exprime complexidades assim, sendo tão jovem?)

A jovenzinha partiu, para nunca mais voltar, há treze anos...e hoje tenho mais este motivo para chorar o específico Noturno - sua escura, doce, bela, lírica melodia trança notas minhas e as dela. De certa forma, anoiteci na noite em que partiu, e continuo anoitecendo ao me lembrar dela. Noturnamente, hoje e ontem, somos nós duas crianças tristes.

(há mistério e paradoxo na introspecção funda de qualquer criança, em qualquer idade)
 
 
Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

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