Coisas da vida

Por: José Antonio Pereira

Naquela manhã o movimento na agência bancária era intenso. Gente que se acotovelava de frente, de lado, de costas e sem tempo para pedir desculpas. E ela, à procura da fila dos aposentados. Mas o difícil foi passar pela porta giratória onde bateu a cabeça e, coitada, gemeu de dor ou de raiva. Mas passou e chegou na fila; chegou para ficar porque ali era o seu lugar.


Enquanto esperava a sua vez, foi observando aquelas pessoas de semblantes cansados, desiludidas. Teve a certeza de que a maioria delas eram professores e professoras aposentadas que, como ele, de pé, diante dos caixas eletrônicos, esperavam chegar a sua vez. Mas outra coisa também ela reconheceu: os idosos sempre querem tudo muito explicadinho, tintim por tintim, tendo até aquele que emperra a fila porque esqueceu o cartão ou o número de senha ou as terríveis letrinhas colocadas para confundir ainda mais o pobre aposentado.


E o cliente quer ver o saldo, mas que saldo? Então o extrato, pois que alguém pode ter feito o saque em seu nome, mas saque do quê? Mas se dinheiro não emprestou, embora o vizinho tenha pedido, onde está o seu dinheiro? E por mais de uma vez pede ajuda ao funcionário suado e de sorriso amarelo.


Finalmente, chega a vez dela, a aposentada também cansada, suada e com sede que consegue ver na telinha uma mistura de números, letras e palavras como saldo, extrato, poupança, mas que poupança? Outro gemido, ai que sede!


Num repente decide largar tudo para voltar num outro dia que não seja o de pagamento de aposentados. Sai do banco cantarolando baixinho:


“... tem dia em que fico/pensando na vida/ e sinceramente/ não vejo saída /sei lá, sei lá, sei lá...”

 

Farisa Moherdaui
Professora

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras