Esvaziamento

Por: José Antonio Pereira

Já não aguentava mais. Dobrou o dorso, encostou o cotovelo no muro, inclinou a cabeça. Como um papel em branco estava a sua face, contrastando com o seu interior, repleto, sem espaço para nenhuma palavra mais. E vieram os espasmos, lentos a princípio, depois num frenesi incontrolável.


O jorro virulento trazia raiva, noites mal dormidas, respostas não ditas, frustrações, um grito contido, dezenas de sonhos perdidos, um punhado de queixas não pronunciadas, conivências forçadas, grande porção de aborrecimento, choro reprimido, falta de afeto, desalento.


Ergueu os olhos e parecia que o mal-estar havia passado. Veio de novo a ardência na garganta. Os olhos se encheram de lágrimas. Colocou a mão na boca numa tentativa inútil de conter o jato que veio ainda mais corrosivo e destruidor. Continha inveja, orgulho, um bocado de falsas intenções, um dissimulado desprezo pelo que não é apetecível.


 Exaurida, tinha impressão que já não restava mais nada dentro dela, porém foi numa contração ainda mais dolorida que sua boca se abriu e, de dentro, saiu uma esfera cinza de medo.


Os transeuntes assustados não se atreveram a aproximar. Em volta dela formou-se um pesado círculo de pessoas. Um jovem se aproximou, colocou a mão sobre seus ombros e perguntou:” Você está melhor?” Ao que ela respondeu: “Aceito, agora, seu convite para tomar um suco de limão.”

 

Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português

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