Vidro

Por: José Antonio Pereira

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“Perfeito assim, linda”, dissera-me ele. “Eu te dou o meu passado e você me oferece o seu futuro, esse que eu não tenho todo mais”.


O acordo, único, então era esse, ele mais velho, eu, bem mais nova. Como se fossem lineares as coisas do coração, como se pudéssemos, nesses limites, estabelecer contratos de cláusulas claras.


Mas, era estarmos juntos para tudo me doer. Encontro que não acontecia sempre. Amantes esporádicos, ele me procurava quando queria, quando podia e assim eu aceitava, porque, nos intervalos das suas idas e vindas, somente neste ponto, eu podia ser feliz, mais leve. O que, dissecando a questão, significava estar longe.


Juntos, o inferno na antecipação em pensá-lo brevemente distante, suscitado pela perspectiva de não me saber quista novamente, daí, sofrimento. Noites mal dormidas, nenhum apetite nesses breves espaços de tempo em que sua vontade me tem.


Com medo de dormir, com medo de acordar. Que sonhos obscuros me abraçariam sem volta? Que dias vazios e longos me aguardariam? Havia o recurso do meio: a embriaguez para conseguir continuar vivendo nesses dias em que ele surgia todo em mim e me remetia no inferno da voracidade, porque, sim, eu quereria mais e nisso me prenderia, sem aproveitar a esmola que ele me jogava e que era justamente esse tempo angustiado, sem proveito, sem vivência presente.


E então, extenuado do embate, ele se despediria, o ar quase satisfeito, levemente acuado, mas aliviado de quem tem para onde voltar, lugar decerto melhor, ao menos após a circunstância ao meu lado: a morna segurança já sem palavras, flácida rotina com esposa que não tinha mais fôlego para reivindicar nada além.


Como a fissura do entorpecimento evaporado e já imediatamente ansiado era exatamente o que eu sentia no primeiro momento de sua retirada, em sinceridade, não: antes. Logo mesmo na primeira comunicação de sua presença. Passaria noites inteiras vigiando o monitor da câmera de segurança esperançosa de que num súbito arrependimento ou, mais improvável, numa intempestiva saudade ele voltasse e atravessasse sob o meu olhar atento a portaria do meu prédio e definitivamente se colocasse na minha vida. Embora tivesse esse homem deixado claro, à saída, quase fuga assustada, de que convicto se retirava de meus grilhões para não mais.


A noite passada em branco, no outro dia eu permaneceria em casa, recolhida, ainda levemente embriagada por sua lembrança e aos poucos me desintoxicaria. Abriria janelas, o vento forte desembaraçando-me dos pensamentos. Ergueria-me devagar: um banho quente, alguma ordenação na casa esquecida por sua presença, a volta ao trabalho, supermercado para reabastecer a geladeira vazia após esses loucos dias em que dele , só dele, me alimentara. A vida aos poucos me retomando até que de novo, numa repetição que me pareceria infinita, quase gasta, ele ressurgisse seu sorriso bonito, sua pele morena quente, sua total incompreensão e de novo eu me esquecesse de mim para vivê-lo em toda a sua exuberante ausência mais uma vez.

 

Vanessa Maranha
Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As coisas da Vida e Cadernos Vermelhos

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