Como se sentir vivo?

Por: José Antonio Pereira

“Todas as coisas desmesuradas são, em ultima instância, inviáveis, acima ou abaixo do uso que delas podemos fazer. Usar as coisas é tomá-las na sua relatividade radical. Tudo é relativo e, ao mesmo tempo,contraditório. Existe  sempre, no caroço das coisas, um limite a partir do qual elas  começam a transformar-se em seus contrários. Por isso, há que ter conformidade e paciência para enfrentar o fato de que todos os apoios e garantias, mesmo os mais sólidos, acabam por transformar-se em areia movediça, sob os nossos pés. Em verdade, andamos sempre sobre as águas, uma vez que, no coração do granito de qualquer granito canta sempre uma fonte.”

Hélio Pellegrino, psicanalista,
in A burrice do demônio.

 
Há uma fonte cantante nos chamando, lá da cidade de Ribeirão Preto. Um encontro que se dá bienal, uma ciranda entre a Psicanálise e a Arte. Um Encontro que traz no bojo a possibilidade de ir ao “coração do granito” a buscar as fontes de sentido na vida.

A II Bienal, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, trouxe como tema as Paixões. Estas águas que podem nos tirar “todos os apoios e garantias...sólidos...” e nos lançar em “areia movediça”, águas barrentas e traiçoeiras, que sinalizam vida ou morte.

A desmesura das Paixões é tema recorrente nos artistas e está presente no ofício cotidiano dos psicanalistas. É justo que se reúnam uns e outros, para uma reflexão sobre os “caroços das coisas”.

São muitas pétalas que fazem a Rosa do Encontro desta Bienal e é difícil se deter em apenas uma. Há um ramalhete de rosas, aliás, que vão se abrir nos dias, 13, 14 e 15 de maio, entre música, pôsteres, danças, muitas palestras e dois cursos: “A Paixão na Arte”, e “A Paixão pela Psicanálise”.

Abrindo a Bienal, a palestra “Paixão pela Realização” com a francana apaixonada Luíza Helena Trajano, esta que guardo nítida nas retinas, detrás do balcão de uma loja na RuaVoluntários da Franca, próxima onde é hoje uma das lojas deste sólido grupo empresarial chamado “Magazine Luíza”. A Luizinha, como os francanos a chamam ternamente, menina-morena-moça...trabalhando na loja da tia Luíza. Cabelos longos pretos, um sorriso fácil, aberto e amoroso, expressão atenta e curiosa ao interlocutor.

É momento histórico a presença dela na Bienal.

Ribeirão Preto, durante décadas, foi pólo das cidades circunvizinhas. Gostoso ver uma “francana da gema” abrir um Encontro que estende suas asas pelo Brasil afora. Ribeirão Preto foi e continua sendo uma cidade com vocação para o crescimento. Mas Franca, em três décadas, desenvolveu uma velocidade de crescimento excepcionalmente grande.

Realizar é palavra forte, originalmente, em inglês. O verbo “to realize” se origina de “real”, “do rei” (quando o rei impunha o que era a “real-idade” para todos os súditos). Realizar é verbo de densidade poiética: é criar o que não existia antes e, a partir de um pré-pensar, de um pré-sentir, algo passar a existir, através da experiência de quem o sonhou.

Como um poema, um quadro, um filme, o “Magazine Luíza” saiu de um sonho e se realizou.

Ouço: “francano dá em todos os lugares” (como capim). A cidade, Luiz Cruz informa, tem muitíssimos escritores e, mais recentemente, a francana Flávia Nascimento ganhou o Prêmio Jabuti de 2009 (tradução). Tem o Basquete, esporte que inscreve a cidade em circuito nacional e internacional. E, o principal, os calçados. Por repetidas décadas, em qualquer canto do Brasil (e fora do país) pelo padrão de qualidade do calçado aqui realizado temos o título de “Capital do Calçado”. Temos o Laboratório de Artes, uma Orquestra Sinfônica Francana, encontros mensais para conversar sobre Cinema & Psicanálise, um jornal que tem Suplemento Literário (!) sabático, no Comércio da Franca.
Muitas gentes a cultivar campos representativos do saber viver na Franca.

Temos que ir à Bienal, não temos? Muito além da Franca do Capim Mimoso, das Três Colinas, do Imperador, ex “Athenas da Mogiana” (Mogiana não existe mais), constituímos, hoje, uma cidade com um patrimônio cultural. Só falta acreditar nele e ampliá-lo ainda mais.

Com problemas e insuficiências, Franca pode ser um bom lugar para se sentir vivo. Podemos re-inventar a “água da careta”, por que não? Ela corre no coração de todos francanos, mesmo que careta não há mais. Está no nosso “coração de granito”.

Quem sabe? Andar 88 km até à vizinha pode nos ajudar a conhecer mais “o que é que a Franca tem?”, ou melhor ainda, a reconhecer “qual a paixão que me move a realizar algo, aqui e agora, como me sentir vivo?”
 
 
Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

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