Novo buquê

Por: José Antonio Pereira

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Não desisto.
Hoje eu quero te dar flores,
prestar a minha homenagem
ao teu amor sem limites,
à tua presença querida;                   
diluir a angústia do corte:
a certeza de tua partida.


Que sejam de éter nascidas
e de amor esculpidas;
brotadas da minha saudade,
e no espaço sem tempo colhidas.
Que falem a língua dos anjos,
dos querubins e arcanjos.
Que a cor, como o orvalho nas pétalas,
seja delicada e translúcida,
à primeira luz da manhã.

 
Que o perfume dessas flores
inebrie o brilho último
da mais distante centelha,
e a fonte da luz primeira.
Mas que seja tão suave
quanto a mais pura alfazema
e a mais tenra maçã.
E apenas se insinue
ao mais perfeito sentido
do sensório universal.

 
Flores que alcancem o eterno.
Que viajem além dos sonhos;
diluam as malhas do tempo
e atinjam o além dos astros,
das constelações, das galáxias,
dos caminhos amorfos do cosmo,
das raias do espaço.

 
Da luz da primeira estrela
aos confins do universo,
atravessem, incólumes.
E que estejam soberbas, viçosas,
um buquê de amor,
perfeito em formas,
em cor, em perfume...
na hora de te encontrar.
 

E que te encontrem à espera,
sentada num banco abstrato
de uma praça não concreta,
mas, nem por isso, irreal,
ou triste, ou escura, ou deserta.
Uma fulva luz está presente,
dourando as cores nos canteiros,
nos caminhos, na relva, no ar...

 
Há querubins à tua volta,
acariciando os teus cabelos
e te ajudando a esperar;
cantando cantigas mimosas
e te fazendo companhia;
afagando tuas mãos bondosas,
alegrando a tua espera,
enchendo de vida o lugar.

 
Eles te entregarão as flores.
E cada flor será um signo,
e cada signo, um voto;
cada voto, uma certeza,
uma evidência de amor.

 
(Em teus lábios, eu sei, se desenhará
um sorrizinho maroto,
de quem já conhece a verdade
sobre a vida além da vida,
e sobre a possibilidade
de encontros siderais.
E dos olhos descerá uma lágrima!...)

 
Mas eu não tenho essas flores,
não sei a língua dos anjos,
Habito um templo de carne,
em globo de barro e de água
(a vida é grave ironia...)
Imploro, mãe, a tua ajuda,
que eu queria te dar flores,
porque hoje é o teu dia.
 
 
Eny Miranda
Médica, poeta e cronista

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