Dostoiévski e as paixões

Por: José Antonio Pereira

Sábado passado duas vozes femininas importantes em suas áreas de atuação, a psicanálise, mandaram seus recados aos francanos pelas páginas deste Comércio. No caderno Nossas Letras, Maria Luiza Salomão lembrava que “a desmesura das paixões é tema recorrente nos artistas e está presente no ofício cotidiano dos psicanalistas”. No Artes, Sônia Godoy dizia que “Freud recorria com frequência aos seus escritores favoritos, em especial Goethe, Schiller e Shakespeare.”


Gostaria de lembrar que Freud era também leitor de Doistoévski, escritor russo que antecipou questões com as quais a psicologia só vai se defrontar já em pleno século 20. No artigo Writings on Art and Literature, Freud diz que Os Irmãos Karamazov, último livro de Dostoiévski, era “o melhor romance já escrito”. Ele lhe suscitaria o tema de seu conhecido ensaio Dostoiévski e o Parricídio.


Outro percuciente analista da obra de Dostoiévski foi seu conterrâneo Mikhail Bakhtin, dos primeiros críticos a empregar o método formalista na abordagem de uma obra de arte. Interessante é que o livro de estréia de Bakthin teve Freud como assunto e se chamou Freudismo. Embora sua abordagem questionasse os fundamentos da psicanálise, há uma linha comum difícil de ser desfiada: ambos têm na linguagem a sua ferramenta de trabalho. Bakhtin é essencialmente um filósofo da linguagem, a qual avalia como camadas de sentido social. Freud é o analista da linguagem que oculta os sentidos mais profundos que jazem no inconsciente do indivíduo.


Foi Bakhtin quem definiu a obra de Dostoiévski como uma engrenagem de vozes que formam uma polifonia. Quando se sabe por seus biógrafos que o romancista costumava ler em voz alta tudo o que escrevia, entende-se o acerto da análise. Mas foi num trabalho reconhecido até hoje como fundamental para a compreensão mais aprofundada das complexidades dos personagens dostoiévskianos que Freud discorreu sobre os desvãos da alma do criador e de suas criaturas. Por vias diversas mas confluentes, o formalista e o psicanalista reconheceram que pela primeira vez um romancista conseguia captar, traduzir e trazer para suas páginas o de-dentro mais visceral e profundo que até então escapava aos efabuladores.


Doistoiévski é marco de inovação. Se no gênero romance, os românticos haviam tentado escapar à realidade erguendo um mundo falso e ilusório; e os realistas, sucedendo-os e contestando-os, pretendiam apenas descrevê-la, com Dostoiévski haverá substancial mudança de rumo. Seu movimento será de busca pelas paixões desmesuradas (tomando de empréstimo o bem colocado adjetivo na frase de Maria Luiza) que tantas vezes mobilizam o ser humano.
As paixões podem se caracterizar por entusiasmo, exaltação, êxtase, alegria, prazer. Mas também por sofrimento, agonia, fúria, cólera... Podem traduzir sentimento por pessoa, objeto, profissão, esporte, arte, causas. Pode ser pela palavra. Ou por uma única idéia, que é o que motiva o crime cometido por Raskólnikov, o protagonista de Crime e Castigo, em quem críticos modernos vêem o traço profético do autor: Dostoiévski antecipou com o personagem os fanáticos de nossos dias. “Eu não matei uma pessoa, eu matei um princípio” é a frase que pode ser colocada hoje na boca de qualquer fanático terrorista.


As paixões em Doistoiévski, especialmente em Crime e Castigo, compõem um coral perturbador pela instabilidade. Impossíveis de serem ignoradas, são percebidas com estranhamento e como revelação. As vozes apaixonadas - de e em  Ródion, Dúnia, Katierina, Marmeládov, Lújin, Porfirii, Sônia - ora sobem seu tom em decibéis enervantes, ora o baixam como se tentassem passar por inaudíveis. E se as paixões são sonoras, também se mostram coloridas. O claro pode se tornar escuro; o cinza virar chumbo pesado ou esgarçar-se em névoa; o branco encardir-se e o encardido alvejar-se. Assim, quando menos se espera. Não por acaso a palavra russa vdrug, que em português se traduz por de repente, tem uso recorrente em Dostoiévski: em Crime e Castigo aparece 564 vezes, a média é de uma por página.


Para falar de paixões, suas características, gama de variações e interdependências, sobretudo sobre seu caráter de traço diferencial do ser humano, acontece em Ribeirão Preto, entre os dias 13 e 15, a II Bienal de Psicanálise e Cultura. Imperdível para quem se interessa em conhecer-se cada vez melhor.
 
Serviço
Título: Crime e Castigo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Rosário Fusco
Editora: Abril Coleções
Ano: 2010
Onde comprar: submarino.com.br

 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço

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