A mãe de minha mãe

Por: José Antonio Pereira

Vó Sinhana, mulher simples, bondosa, sempre se vestiu de preto, saia e blusa da mangas longas e aquele lenço estampado a lhe cobrir os cabelos que se escuros ou claros, como saber?


Minha avó viveu por muitos anos e o que marcou muito o seu jeito de ser foi o chorar. Vó Sinhana era chorona e os seus olhos miúdos sempre marejados ou, mais ainda, banhados em lágrimas, fosse em momentos de tristeza ou alegria ou mesmo por coisas simples. Chorava porque o feijão tinha queimado, o leite derramado, o pão não tinha crescido; chorava quando não recebia ou quando recebia a visita de pessoas queridas. Mas chorava pra valer só em pensar que suas filhas pudessem ficar pra “titias” e se até quando “mocinhas” não aparecessem os pretendentes urgia arrumar os noivos e eram cinco as gentis casadoiras. Portanto, cinco motivos a mais para vó Sinhana chorar.


E no seu linguajar, mistura de árabe e português, era comum ouvir vovó se lamentando e sem nenhum motivo.


- Eu tá doente, dói biscoço, dói barriga de perna, dói bacia, eu vai murê.


Alguma das filhas ao seu lado respondia:


- Mãe, a senhora não vai morrer, não chora, nem doente está. Calma, mãe.


E Vó Sinhana:


- Cala a boca ulê, sinhora num mi mandáaaa, eu vai murê, deixa eu chóraaaa, deixa eu murê.


As lágrimas, ela as enxugava na manga longa do vestido preto.


Vó Sinhana, meu tipo inesquecível!

 

Farisa Moherdaui
Professora

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