Jardim bom

Por: José Antonio Pereira

O advogado e escritor Valter Chimello, ao sair do edifício Esmeralda e pisar a Praça Barão da Franca, esbarra na bengala e no homem que nela se apoia. Por sorte, o encontrão foi insuficiente para derrubar o homem. Então, a surpresa do advogado é genuína, e é espontânea sua expressão de alegria.


- Sô Chico... que prazer enorme em rever o amigo.


O corpo do homem parece se apoiar ainda mais na bengala, e todas as suas reações revelam timidez. Os olhos muito arregalados, demasiadamente fixos no outro, a boca semiaberta, o ligeiro tremor dos lábios, tudo grita esforço penoso. A memória, porém, cochila, não se move um milímetro sequer.


- Peço mil desculpas ao jovem, peço que me perdoe, mas não me recordo da sua fisionomia. Você pode me dizer qual é a sua graça?


- Ora, Sô Chico, sou o Valter Chimelo.


- Nossa... é o menino Valtinho, filho do Manoel Peres e da Dona Amélia?


- Eu mesmo.


- Nossa... e eu não te reconheci...?! Peço perdão... Bem que o médico fala que eu preciso usar óculos, mas eu não gosto, acabo sempre esquecendo eles aonde eu vou.


- Calma, Sô Chico. É que faz muito tempo que a gente não se encontra.


- Faz mesmo. Eu aposentei, não vou mais lá na Prefeitura. O Denis ainda vai, mas eu não conheço quase ninguém, quase todo mundo que era meu amigo já morreu. Não gosto nem de passar lá perto, porque fico triste.


- Mas estou vendo que o senhor está forte, está muito bem.


- Que nada, menino Valter. Eu é que sei: é uma doencinha aqui, uma dorzinha ali... e um monte de remédio. De bom mesmo só ficou a cabeça. Isso ficou. Tenho cabeça de elefante, guardo tudo, lembro direitinho de tudo. Lembro, como se fosse hoje, da sua eleição para vereador. O jornal fez pesquisa, falou que você era o vereador mais novo da história da cidade. A Câmara Municipal ficava na Praça Nossa Senhora da Conceição, perto da Livraria do Comércio. Eu gostava de ir às reuniões, de ouvir os discursos do Flávio Rocha. Você foi eleito no ano que o povo botou o Doutor Lancha e o Corrêa Neves na Prefeitura, não foi? A eleição foi no ano de 1968? Foram eles que levaram a Prefeitura para o prédio novo, lá na Avenida Presidente Vargas.


- Puxa, que memória.


 - Eu era muito amigo da sua família, menino Valter. Você lembra que eu ia muito lá no Bom Jardim? Lembro direitinho dos seus pais e dos seus irmãos. Eu tenho cabeça muito boa, não esqueço nada. Também, cuido muito da saúde: nada de bebida, nada de cigarro. E só ando a pé. Vou e volto a pé.


- Isso é muito bom para a saúde. Foi muito bom ter encontrado o senhor, Sô Chico.


- Estou indo para casa. Eu moro atrás da linha do trem. Vou subir pela Rua dos Bondes.


- Então até mais ver, Sô Chico.


- Até mais... Dê lembranças aos pais.


Chico Franco desce a Rua General Teles, levando a mão à aba do chapéu, no gesto de descobrir-se, ao cruzar com pessoas apressadas que não percebem a intenção do velho, nem ouvem o a batida metálica de sua bengala nas pedras do calçamento.


 Durante alguns minutos, o escritor observa os passos vacilantes do amigo dos saudosos pais, a sua desusada forma de cumprimentar, o seu terno amarrotado, o seu velho chapéu Panamá.


Quando o vulto se mistura ao povo, Valter deixa a praça, sobe cabisbaixo a Rua Monsenhor Rosa. Passa diante do prédio abandonado da Associação dos Empregados no Comércio, dirige-se ao estacionamento, em busca do carro.
Caminha devagar, o espírito perambulando pelas cercanias de Franca, pela imensidão que era a região do Bom Jardim, revisitando os pais Manoel e Amélia que cultivavam a terra pródiga do acanhado sítio.


Caminha devagar, parando à sombra de conhecidas árvores, trepando no cupim para melhor enxergar a linha do horizonte, enchendo o bolso da calça curta de pitangas.


Caminha absorto, conscientizando-se, talvez pela primeira vez, que foi naquele jardim bom que seus pais lhe colheram o diploma de advogado e os caminhos retos de toda a prole.


Caminha e, como nunca, dói-lhe a lembrança de que o jardim dos pais virou bairro da cidade que continua correndo Bom Jardim adentro.


Dói intensamente o saber que os moradores do Jardim Zelinda não sabem que vivem num jardim ainda vivo dentro dele, num jardim danado de bom.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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