Um segredo no Cemitério da Saudade

Por: José Antonio Pereira

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Tudo começou quando cursávamos a oitava série ginasial no IETC. A Semana Santa se aproximava naquele ano de 1964. Ansiávamos pelo feriado mais longo que de costume.


Eu tinha três amigos inseparáveis. Nós próprios nos denominávamos “os quatro mosqueteiros” em face das aventuras malucas em que nos metíamos. Nossos entendimentos se davam pelo olhar, por sinais disfarçados. Uma frase besta era nosso lema: “Mijar em pé, ir pra guerra e pegar gonorreia é coisa de macho.”


Pois na Semana Santa em questão, acho que numa quarta ou quinta-feira, por insistência e cobrança de nossas mães católicas, vimo-nos reunidos indo à igreja matriz. Tomamos assento numa das últimas fileiras. Entramos quietos. Permanecemos calados. Saímos mudos. Do lado de fora, aspirando o ar puro da noite, falei: “Macho que é macho não tem medo de entrar no cemitério à noite.” O silêncio aumentou entre nós. Falar de cemitério em plena Semana Santa, depois de tanto roxo e incenso jogado à nossa cara, já era demais. Observe o leitor que à época relatada não havia televisão, nem internet, nem globalização, nem nada que viesse transformar, como transformou, o horror em comédia. O horror à morte, à paixão, ao luto ainda era o horror.


Repeti a provocação. Lua cheia. Brisa suave de quaresma banhava nossa face juvenil. Sentamo-nos num dos bancos do jardim. R., o mais velho dos quatro, disse, quase num sussurro: “Só tem um jeito de provarmos nossa coragem visitar o cemitério na noite da Sexta-Feira da Paixão.”


Primeiro a cisma. Depois os olhos semicerrados imaginando a cena. Em seguida, o sorriso maroto. Depois, a gargalhada safada. Enfim, o trato feito e as estratégias de como ocorreria mais essa aventura.


Na manhã de Sexta-Feira Santa do ano cristão de 1964, feriado, os quatro mosqueteiros se reuniram à beira do córrego dos Bagres, próximo à fábrica Samello. Com um canivete, ferimos nossos polegares unindo-os uns aos outros como irmãos de sangue, na sorte e no azar, nas aventuras e desventuras pelas quais poderíamos passar à frente. Fiquei com um talho no dedão por todo o dia, o que me incomodou bastante e me fez escondê-lo antes que alguém me fizesse contar nossas intenções malucas. A sopa do jantar, só de legumes, desceu apertada goela abaixo. Nossas mães foram avisadas de que nós quatro, juntos, iríamos à procissão.


Enquanto a cidade carregava velas acesas, bruxuleantes e entoava cânticos tristes, pés descalços sobre paralelepípedos, nós quatro seguíamos ao cemitério. Cada qual com sua lanterna. Meu dedo polegar latejava de dor. Só de esbarrar em algum objeto, tornava a sangrar. Qual vampiro sedento, chupava aquele sangue para não ter que secá-lo na roupa, deixando nódoa denunciadora.


O muro era baixo. Fizemos escadinha com os dedos das mãos entrecruzados. Num salto, eis-nos no campo santo. Ninguém se aventuraria a percorrer as ruas laterais, lá de fora, quanto mais aqui dentro naquela noite. Cada um acendeu sua lanterna e avançamos cemitério adentro. À medida que caminhávamos cuidadosamente entre túmulos, estátuas de anjinhos, cruzes, plaquetas azuis com o conhecido “Perpétuo”, íamos ganhando confiança, pois nada acontecia de assombroso. Fomos aos poucos configurando nossa coragem, ombros erguidos, peito enfunado, passos firmes. Súbito, nossas lanternas iluminaram um túmulo acima do nível do chão, aberto. Uma sepultura fresca à espera de seu eterno morador. Sem abrir a boca, já antevíamos a próxima tentação: quem de nós teria a coragem de entrar na sepultura. Resolveu-se a situação pela sorte da pedrinha nas mãos. Coube a S. a nobre tarefa. Passou-me a lanterna, tirou a jaqueta e, para não fugir do trato, jogou-a ao fundo do jazigo. E lá se pôs, deitado, sob os risos excitados e abafados dos companheiros. E assim, deitado, só podia nos ver uma parte do rosto e a lua cheia no céu. Saiu dali como quem sai vitorioso de uma batalha, não antes sem observar que seu dedo também sangrava, e muito, deixando pistas vermelhas dentro da sepultura.


Pulamos o muro. Ainda pegamos um restinho da procissão. Voltamos para nossas casas. Dormimos como anjos malvados. Não sonhei com caveiras nem cemitérios. Acordei. Sábado de Aleluia. Nenhuma novidade. Nenhum encontro. Domingo de Páscoa. Missa das sete e meia. Confissão. Veio a segunda-feira. Aula matinal. Recreio. Os quatro juntos, novamente.


S., o nosso herói, estava inquieto. Lembrou-se de um detalhe: “Esqueci minha blusa dentro do túmulo. E dentro da blusa, minha carteirinha de estudante, com foto, nome e tudo. Temos que voltar lá para apanhar minha identidade.”
Duas da tarde. Os quatro de novo no cemitério. Só que agora sem lua-cheia, sem penumbras, sem lanternas nem passos furtivos. Apenas um sol de cegar, refletido nas sepulturas caiadas. Foi difícil refazer nossos passos, mas chegamos frente ao jazigo visitado. E levamos, num misto de assombro e temor, as mãos ao rosto: a sepultura estava tampada, flores sobre a lápide. Alguém houvera sido enterrado no Sábado de Aleluia ou no Domingo de Páscoa. O coveiro, com certeza, no momento de encaixar o féretro naquele exíguo espaço onde S. se metera, não pudera ver a jaqueta lá no fundo escuro, nem as manchas de sangue. O ângulo de visão, de quem estava de pé, não permitiria. O caixão deslizara sob a pá do coveiro e empurrara a jaqueta ainda mais para o canto salpicado de cal virgem.
 
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Hoje, passados 46 anos, revelo um segredo do Cemitério da Saudade, que ficou guardado na mente de quatro adolescentes, agora adultos. Dentro de um túmulo, e não posso revelar qual seja, junto aos restos mortais de alguém amado, jazem gotas de sangue ressecado de S., sua jaqueta, sua carteirinha de estudante e sua fotografia de quanto tinha 14 anos de idade.

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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