O fabuloso fabulista francês

Por: José Antonio Pereira

A palavra fábula mantém de suas mais antigas origens o sentido de relato, narrativa, invenção. E pela sinonímia de ‘conversação’ é de se supor que no início se referia ao encadeamento de fatos transmitidos de forma oral. O grego Fedro (30 aC) já tornara populares sagas como a da raposa e as uvas verdes, sobre a inveja, quando outro grego, Esopo (500 aC), as reuniu em textos rudimentares, como Dois viajantes e o urso, sobre a amizade. Era a palavra falada alçando status de história escrita em versos. Personagens principais, animais agiam como seres humanos, ilustrando um preceito moral. Especialmente por esta última qualidade as fábulas foram repetidas às crianças durante séculos. O efeito pedagógico manteve-se até nossos dias, quando vemos em muitos desenhos animados uma releitura das fábulas que seriam revisitadas e ampliadas no século XVII por Jean de La Fontaine.


Edições é o que não faltam quando se trata de elencar as que procuraram reunir a obra de um dos mais queridos escritores franceses. Ganhei de querida amiga o precioso La Fontaine illustré par Born, da Editora Gründ. Imagino que grande trabalho terão tido os editores para enfeixar em 600 páginas de papel cartão tudo o que o mestre escreveu, inclusive textos que chegaram inéditos a nosso século. É um livro de arte, onde as ilustrações do tcheco Adolf Born conferem um plus em traços que, sendo infantis, não excluem o trágico, uma de suas marcas. Grande nome do desenho na Europa, Born já ilustrou mais de 200 trabalhos do tipo e fez incursões em filmes de animação. No mundo digitalizado ainda há pais e avós que elegem um livro como este para ler em parceria com os filhos e netos. Os ganhos podem ser muito grandes, pois se La Fontaine fala às crianças, diz muito também aos que já adentraram o tempo que se costuma chamar de maturidade, e nem sempre corresponde à idade cronológica.


Cada história recontada por La Fontaine recebe o sopro de sua poeticidade, enriquece-se com uma de suas maiores qualidades que é a linguagem cristalina e se beneficia de uma ingenuidade que presupõe um árduo trabalho. Sempre foi difícil ser simples: enganam-se os que confundem simplicidade com facilidade. A partir dos enredos dos gregos, o escritor francês alcança uma forma original onde insere elementos da comédia e da tragédia clássicas. Os protagonistas/atores ( pois os textos serviram no início como roteiro de peças) são em sua maioria animais que se comportam como seres humanos e representam hábitos e vícios de sua classse. Eles procuram, com suas falas e ações, ridicularizar os defeitos humanos, um pouco à maneira instituída pela frase latina- ridendo castigat mores, ou seja, rindo é possível criticar os costumes. Uma lição que pode ser bem cumprida até os nossos dias. O humor é uma arma de potencial às vezes subestimado.


Além das caracteristicas mencionadas, as fábulas de La Fontaine primam muitas vezes pelo esboço psicológico que as torna imortais. É o caso desta que destaco, a terceira a abrir o volume, depois de A cigarra e a formiga e de O corvo e a raposa. Chama-se A rã que quis ser do tamanho de um boi, que traduzo livremente:


Uma Rã invejosa viu um Boi
Que lhe pareceu de belo talho
Não sendo grande nem gorda
Pra ser igual pôs-se a trabalho
Parou, respirou, inflou
E muitas vezes se olhou
Até que enfim falou
Àquela que estava ao seu lado:
 —Olhe bem, minha irmã, disparou.
Então...do tamanho dele já estou?
— Não, falta muito ainda,
respondeu a rãzinha aflita.
Então a estrepitosa inchou tanto
Que explodiu no seu canto.
O mundo está cheio de pessoas que não são sábias:
todo burguês quer ter castelo como grão-senhor
todo pricipezinho quer ter embaixador
todo marquês anseia um dia ter seus pagens.
 
La Fontaine pertence ao gênero de escritor a que chamamos frasista. Suas frases lapidadas caem como verdades e se fixam no espírito do leitor com a intensidade de um bólido. Vejamos algumas: “Para salvar o crédito é necessário ocultar a perda. Não adianta correr, é preciso partir no momento certo. Todo adulador vive à custa de quem o escuta. Todos acreditamos em duas coisas: naquilo que tememos e naquilo que desejamos.”


Dois séculos depois Rousseau retomaria o jeito pagão de analisar o ser humano e o tema da natureza exemplar, apontando-a como modelo a seguir na conquista da felicidade. Mas ficou a anos-luz da graça, da elegância, da doçura, da malícia e da riqueza da simplicidade de La Fontaine.
 
Serviço
Título: Fables illustrés par Born
Autor: La Fontaine
Texto integral
Editions: Grüng
Páginas: 586

 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço

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