O filho do poeta

Por: José Antonio Pereira

Ele é silencioso, discreto, comedido. Às vezes chega a ser imperceptível. Sua voz é baixa, seus movimentos são suaves. Engenheiro, parece estar sempre medindo, calculando, ponderando . Porém, dias atrás , ele se transformou. Sua voz era audível, clara , vibrante. Seu coração, sem dúvida, palpitava mais forte. Palpitava de emoção, emoção que tomou conta do recinto e nos envolveu como um uma espécie de abraço fraterno, evocativo e carinhoso. Ele declamava uma poesia. Não era uma declamação qualquer de uma poesia qualquer. Os versos fluíam de sua alma cadenciados pelas batidas de seu coração. Naquele instante, ele deixava sair de si o sangue de poeta que lhe corria nas veias. Liberava a inspiração contida, a saudade guardada, o talento herdado. Ele e o verso eram criações de um mesmo poeta. Foi numa terça-feira, numa reunião da Academia Francana de Letras com o Colégio Fernando Pessoa. Foi numa roda de poesia que Helinho, o engenheiro, declamou Josafá, seu pai, poeta maior de nossa literatura.


Muitos têm como pais homens ricos e poderosos. Deles podem herdar dinheiro, prestígio e fama. Contudo, filho de poeta é outra coisa! O filho de um poeta herda os versos do pai, versos que podem ser lidos, declamados, interpretados. Versos que, ao serem pronunciados, revivem o seu criador em sua essência, em sua arte, em sua sensibilidade. Naquela noite de terça-feira, eu percebi uma fantástica transformação: declamador e poeta, pai e filho, Helinho e Josafá fundidos num inesquecível momento de sensibilidade e beleza.


Filho de poeta: você tem como herança os versos de seu pai. Leia-os, leia-os sempre. Declame-os, declame-os em voz alta , forte, firme, emocionada. Traga-o para nós. Faça-o viver novamente para nos encantar com a sua poesia tal como esta que um dia recebi do imortal Josafá Guimarães França:
 
Dizem que sou cascudo.
Habito, é tudo, em locas submersas, não piscosas.
A vida é escura e o mundo mudo
Como as mudezas mais silenciosas.
Existo nesse arcano e não me iludo
Com as tonas vivas ou silenciosas
Corredeiras que são para um cascudo,
O que os ventos seriam para as rosas...


A claridade em que me nutro encerra ,
Em força a atomística suprema
Que faz dos homens deuses sobre a terra!
 
 
Deixai que eu viva peixe submerso
E só amanheça em águas de poemas
Sem luz nenhuma que não seja o verso!
 
 
Chiachiri Filho
Historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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