Hospital Regional

Por: José Antonio Pereira

Passos claudicantes conduzem o velho pela Rua Voluntários da Franca, em direção ao centro. Ainda faltam duas horas para o meio dia, e o chapéu já protege pouco: o suor lava o rosto do homem, empapa o colarinho da sua camisa. De quando em quando, a marquise de uma casa vira oásis, o homem interrompe a caminhada. Então, apoiado à bengala, encostado à parede que lhe suja o terno branco, afrouxa a gravata, espera que o equilíbrio da respiração se restabeleça.


Desde o quarteirão anterior, uma mulher que vem pela mesma calçada observa curiosa o caminhar vacilante do homem. E, quando ele para, ela apressa o passo, alcança-o.


- Precisa de ajuda, meu senhor?
- Bom dia, jovem.
O homem leva a mão ao chapéu e se descobre.
- Bom dia. O senhor precisa de alguma ajuda?
- Qual a graça da jovem ?
- Graça? Não entendi...
- O seu nome.
- Ah, Leila. Meu nome é Leila de Oliveira. Vi que o senhor estava muito cansado, pensei que podia ajudar...
- Chico Franco, seu criado.Estou indo pra casa, eu moro atrás da linha do trem. Vou subindo, passo na Praça Nossa Senhora da Conceição, desço até a Água da Careta, subo outra vez, chego na Praça da Estação. Depois é um pulinho até minha casa.


- Tem ônibus logo ali, na Praça do Itaú.
- Ah, mocinha, eu não entro em ônibus. O coração do homem está nas pernas...Vou e volto a pé... sempre andei a pé.
- Mas o senhor está muito longe de casa, e está muito quente hoje.
- Pois é, eu levantei cedo, vim andando... Eu sempre levanto cedo. Fazia tempo que eu não vinha pro lado de cá. Me deu vontade de ver o Hospital Regional, então levantei cedo e vim andando. Agora estou voltando pra casa.


- Eu já trabalhei lá no hospital.
- Não diga que a jovem é enfermeira.
- Sou, mas não trabalho mais não. Estou aposentada.
- Qual é a sua graça ?
- Leila.


- Chico Franco, seu criado. Eu lembro direitinho da construção do hospital. A idéia foi do Dr. Cirilo Barcelos e de outros colegas seus, e logo um punhado de médico foi atrás. Arranjaram muitos empréstimos na Caixa Econômica do Estado, venderam ações e foram levantando o prédio. O Dr. Cirilo vivia falando numa tal de tríplice finalidade: aumentar o número de leitos de Franca e região, criar oportunidade de trabalho para os médicos recém-formados e trazer para a cidade especialidades não existentes aqui. O povo não entendia direito tudo que ele falava, mas todo mundo acreditava. De primeiro a gente acreditava mais no médico que no padre.


E o velho cada vez mais se empolga, e fala, e fala. Diz que o Doutor Décio Pacheco Pedroso autorizou o projeto, deu assistência. Explica que o projeto seguiu o modelo do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ressalta que, aqui em Franca, os engenheiros responsáveis foram Hoover Américo Sampaio e Ary Pedro Balieiro. Assevera que a inauguração foi uma festa ma cidade, que ela aconteceu no dia 9 de julho de 1967. Relaciona as autoridades que vieram a Franca, entre elas Laudo Natel, então Governador do Estado de São Paulo.


- Virgem, o senhor lembra tudo.
- Ah, jovem, todo mundo fala que eu tenho cabeça de elefante. Guardo tudo, tintim por tintim, nunca esqueço nada. Qual é a sua graça?
- Leila.
- Chico Franco, seu criado. Estou indo lá pra Estação, eu moro atrás da linha do trem.
- Eu acompanho o senhor até a Praça do Itaú. Eu vou tomar o ônibus.
- Eu não ando de ônibus. Vou e volto a pé. O coração do homem está nas pernas...


E os dois caminham lentamente pela Rua Voluntários da Franca, o homem falando sem parar, a mulher anuindo com gestos de cabeça.


O sol, impassível, caminha mais depressa que os dois.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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