O justo e o certo

Por: José Antonio Pereira

A propensão lusitana à burocratização e a forma como são feitas as leis e as salsichas no Brasil (como disse sabiamente Bismarck, o marechal de ferro da unificação da Alemanha, que temia que o povo soubesse como ambas são feitas de verdade) tem levado as pessoas e empresas, na vida moderna, à busca incessante do judiciário para dirimir dúvidas e desavenças. Com isso, a necessidade da advocacia cresce exponencialmente, acho que no mundo todo, inclusive numa cidade que já foi considerada uma ilha de advogados cercada de sapateiros por todos os lados.
Aliás, advogados como meu amigo Alexandre Diniz, por exemplo, adoram usar aquele adesivo corporativista no carro, com um dístico do tipo “justiça só se faz com advogado”. O lado perdedor sempre acha o contrário, mas deixa para lá.
Por isso, pode parecer estranho, mas foi um outro amigo advogado que me fez ver a diferença entre o certo e o justo, com uma interessante história de causídicos, provavelmente daquelas contadas nas salas de aula por velhos e experientes professores. Eram dois sócios advogados num escritório, companheiros desde os tempos da faculdade e da “república” de estudantes. Tornaram-se tão próximos que constituíram uma sociedade, foram padrinhos de casamento um do outro. Muito amigos, viviam juntos nos restaurantes regados a bons vinhos, em viagens a passeio e em jantares íntimos, só eles e as respectivas mulheres, gastando bem o dinheiro que ganhavam com uma causa vencida atrás da outra.


Conversa vai, conversa vem, acabou acontecendo, que essas coisas do amor ninguém controla. Um deles começou a sair com a mulher do outro. E o pior, o outro também. Dizem que chumbo trocado não dói. Só que ninguém sabia do outro.


Certo dia, após avisar a secretária que iria para o Fórum apanhar uns processos, um deles na verdade levou a mulher do outro para o motel. Para surpresa do casal, encontraram o outro casal trocado saindo do mesmo lugar, ambos de banho tomado. Flagrante vexatório para os quatro envolvidos.


Constrangidos, os casais trocados desceram dos carros para conversar na porta do motel. Um dos advogados, o que estava saindo do motel, virou-se para o sócio e disse: “vamos resolver isso civilizadamente, acho que o certo é irmos todos embora para casa, refrescar a cabeça, é o mais justo para todos, cada um conversa com sua mulher para depois, com calma, sentar numa mesa e resolver da melhor maneira possível isso tudo”.


Ao que o outro advogado retrucou: “é, o certo é isso, mas justo, justo mesmo não é, afinal você está saindo do motel e eu nem cheguei a entrar”.

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