Os turnos alados

Por: José Antonio Pereira

DIA 20 de abril, duas rolinhas me visitaram: sondavam um vaso de orquídeas pendurado no caule da palmeira elegante, que avisto da minha poltrona. Escolhiam um lugar para aninhar. Foram embora e pensei que tinham decidido encontrar lugar melhor.


Dia 21 de abril, voltaram e se instalaram. Vi alvoroço de galhinhos trazidos pelo pai, ajeitados pela mãe-rolinha, entre as folhas da orquídea. Outro vaso, em cima do ninho em construção, encaixou apropriadamente como um teto.
Dia inteiro voos e revoos de asas, uma faina incessante do casal. Por duas ou três vezes o pai-rolinha rendia a companheira, e ficava a aconchegar os ovinhos, enquanto a mãe-rolinha voava por aí. Depois de um curto espaço de tempo, ela voltava e o pai continuava a trazer galhinhos para o ninho.


Turnos do casal para a delicada tarefa de aninhar e chocar os dois ovinhos.


Lembrei da história de um casal que, ao engravidarem do primeiro filho, estabeleceram turnos de trabalho, para que o bebê tivesse um dos dois por perto, enquanto o outro trabalhava. Com que espanto e admiração li e meditei sobre este arranjo amoroso deste casal...


É verdade que um bebê dá muito trabalho, mas também é ocasião de profundo aprendizado. Criar os filhos, em turnos, concede ao pai viver intensamente os primeiros anos de vida de um ser humano.


As rolinhas vão revoando em turnos, chocando, chocando, até que a rolinha-bebê se torne rolinha-adolescente, capaz de voar com suas próprias asas, a buscar novas rotas do seu viver.


Dia 11, p.p., os dois filhotinhos compareceram, e a mãe-rolinha os alimenta colocando bico-a-bico o alimento mastigado, e remastigado, por ela. Nestes dias subitamente frios eles se ajeitam, um de cada lado, vislumbro as cabecinhas e os olhinhos quase sempre fechadinhos, em pálpebras de seda transparente. Daqui a poucos dias o vaso se tornará pequenino.


O humano-bebê demora muito mais do que as rolinhas até se tornar humano-adolescente. Quisera saber com que sabedoria os filhos do casal-de-turnos cresceram, tendo o pai próximo como a mãe, os dois adultos com suas necessidades adultas garantidas, enquanto velavam pelo crescimento das crias.


Hoje, com a sabedoria amealhada da criação dos meus dois filhos, penso que o pai, do casal-de-turnos que li, foi muito sortudo.


Quanta coisa este pai deve ter aprendido, o quanto cresceu como pessoa, ao revoar juntinho da mãe e do bebezinho, este serzinho que, ao se humanizar, pode voar longe ... a buscar novas rotas no seu viver.

 

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

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