‘Foi apenas um Sonho’, o filme, hoje

Por: José Antonio Pereira

“Porque é preciso um pouco de
coragem para enxergar o vazio, mas é preciso muito mais pra
enxergar o desespero. E acho que, quando a gente enxerga
o desespero, a única opção é
mesmo cair fora. Pra quem pode.”
(fala de
John Givings, o personagem diagnosticado como “louco”)
 
“É preciso ter força de caráter para levar a vida que você quer”.

(April Wheeler, a protagonista)
 
 
HOJE, sábado, o Cinema e Psicanálise traz a psicanalista Maria Lucimar Fortes Paiva, da SBPRP, para comentar o filme baseado na obra-prima de Richard Yates, 1961, Rua dos Revolucionários, título mal traduzido para o português: Foi apenas um Sonho.


Mais do que um drama familiar, o livro e o filme retratam a geração do fim dos anos 50, a mulher dona-de-casa, “rainha do lar”. O mundo, onde tudo acontecia, era dos homens.


Este retrato é um tanto difícil de ser encarado. O relacionamento do casal protagonista mostra meandros e dificuldades que acontecem nos casamentos, ainda hoje. Há ironia no título original Rua dos Revolucionários, no desejo do casal de “revolucionar” suas vidas mas sem que consigam - os dois - sair dos estreitos limites convencionais.


April, a protagonista, é uma mulher que acredita nas palavras do marido Frank ao se casar com ele, que se dizia entediado no trabalho e querendo “se encontrar” em alguma atividade que o retire da massa, da multidão anônima em que se mistura, quando sai do subúrbio e vai para Nova York trabalhar. Ela se apega a algo que Frank teria dito, no início do relacionamento, sobre a experiência de “estar vivo” quando estava em Paris, na Guerra. E quer “salvar” o marido e o casamento, atravessando o Atlântico, trabalhando lá, como secretária, para permitir que o marido defina seu rumo. Coisa impensável para a classe média dos anos 50, uma mulher sustentando o homem.


Frank, o protagonista, bem jovem se revolta contra o pai, ou contra o estilo de vida do pai, e fica à deriva, até repetir a trajetória paterna, ao se empregar na empresa na qual o pai passou toda a vida, sem atingir sucesso profissional (ou pessoal).


No filme, a narrativa privilegia April, que, calada, (Frank fala muito, quase o tempo todo), é a grande heroína, no sentido de que tenta tomar o “destino” em suas mãos, ao mesmo tempo em que luta para que Frank se torne um “homem”, deixe de ser o “menininho”, que evita tomar decisões, adiando indefinidamente suas realizações.


Frank critica o trabalho, as pessoas da sua comunidade, entra no “jogo masculino” (trai a mulher, mente, e procura a aprovação do pai e do grupo masculino o tempo todo). Principalmente procura se justificar pelas circunstâncias, que o aprisionam. Ao se apegar às circunstâncias da sua vida, basicamente a sucessão de gravidezes da mulher, justifica sua vida estagnada, sua falta de senso de valores, sua atitude conformista, apesar de seu discurso.


April vagamente percebe que a vida que levam é uma vida falsa, e que ela pode colaborar para que o casal tenha outra perspectiva.


Frank aparenta bom senso, mas tudo o que diz é para convencer April a se conformar, como ele, ao estilo de vida dominante. Não se sente, portanto, vencedor nos intermináveis debates que têm, ao longo do drama. Quando assisti ao filme tive a impressão de estar assistindo a um teatro. Kate Winslet como April, e Leonardo DiCaprio como Frank, fazem uma performance magistral.


Com Justin Haythe como (excelente) roteirista, salienta-se o personagem “louco”, John Givings, representado por Michael Shannon, que ganhou o Oscar 2009 de Ator Coadjuvante.


O “louco” tem uma participação crucial na trama. Pontua a dificuldade de Frank em assumir suas responsabilidades e consegue ver em April uma “garra” e determinação feminina, rara na mulher dos anos 50. Com a lucidez própria dos “loucos”, vê que a hombridade de Frank está em engravidar a mulher, submetendo-a a uma vida solitária, mãe de seus filhos, rotineira e monótona.


A “teatralidade” do filme é uma forma adequada ao conteúdo da trama. April define Frank, como possuindo “lábia”, incapaz de realizar o que se propõe. Ela resiste, mas não se vê capaz de agir com autonomia. Ao final percebe que não conhece a si própria. Ela se debate, até o fim, para sair do “vazio desesperador”.


É um filme “anti-hollywoodiano”, no sentido de que não propõe soluções, mas sim questões complexas. É filme para se pensar e sentir junto, por isso, apareçam no Centro Médico, às 15 pontualmente horas! Revolucionaremos nossos pensamentos. Tentaremos!

SERVIÇO
Filme: Foi apenas um Sonho
Lançamento: 2008 (EUA) - (Inglaterra)
Direção: Sam Mendes
Atores: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, Ryan Simpkins, Ty Simpkins
Duração: 119 minutos
Gênero: Drama
 
 
Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

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