Não esqueça o colorido

Por: José Antonio Pereira

Vamos imaginar uma situação. Ela ocorre com Donizete, um engraxatezinho incansável, assíduo frequentador da Praça Barão, cuja arte rítmica com a graxa e as escovas deixa um brilho tal nos sapatos que quase fere a vista a gente. Pergunto-lhe se ele não se cansa. Ele me responde que não, mas acrescenta: “Eu ficaria cansado se apenas engraxasse sapatos.”


Continuemos a imaginar. O menino Donizete tem alguma coisa em comum com o Brandiere, uma lavrador que provavelmente vendesse lenha na minha infância. Um vizinho nosso, o Joaquim Bordignon, encomendou-lhe uma carga de lenha no início de dezembro. Brandiere não se limitou a descarregar a lenha e depositá-la no quintal. Fez uma plataforma de pedras e sobre ela empilhou cuidadosamente a lenha, com uma ligeira inclinação, para evitar que a água da chuva a encharcasse. Depois examinou a sua obra e disse pausadamente: “A lenha é sempre uma coisa bonita crescendo, cortada ou queimando.”


Agora não é imaginação. Agora é fato. O senhor Orestes Moretti, dono da farmácia Orestes no alto da Rua Dr. Júlio Cardoso, senhorio da casa em que morávamos, no Natal de 1958 apanhou cuidadosamente uns cachos de uva de uma velha parreira que cuidava em seu quintal, encheu um cesto de vime, repousou sobre eles um pedaço limpo de pano quadriculado, dirigiu-se aos meus pais e lhes disse, entregando-lhes o presente: “Não poderia ter só para mim essas uvas. Espero que elas enriqueçam ainda mais a sua mesa de Natal.”


Donizete, o engraxate, Brandiere, o lenhador, e Orestes, o farmacêutico e senhorio de nossa casa, cada um à sua maneira, descobriram o segredo de extrair satisfação e contentamento de tudo o que fazem.


Houve uma época muito feliz em que eu estudava piano com a professora Lúcia Garcetti. Lembro-me de que estava estudando uma peça de Brahms. Eu tocava as notas exatamente como estavam escritas. Lúcia Garcetti tocou as mesmas notas, mas com brilho e alma. Pediu a mim que repetisse o trecho várias vezes, mostrando de cada vez a qualidade especial que desejava comunicar: “Ponha colorido nisso, sempre o colorido”, dizia ela. Quando afinal eu consegui fazê-lo, senti minha fisionomia se iluminar de pura alegria. Nunca mais toquei somente as notas das partituras, mas sim as notas do meu coração.


O colorido é o brilho que coroa um esforço total aplicado a um trabalho, qualquer espécie de trabalho, para fazê-lo da melhor maneira possível. Exige um pouquinho mais de esforço, toma um pouquinho mais de tempo, mas depois que se experimenta o misto de entusiasmo, orgulho e alívio que resulta da criação de um arco-íris, a vida passa a ser outra. Pode-se dizer honestamente: “Isso é bom. Tem um pouco de mim mesmo.” Daí por diante, todas as tarefas que antes pareciam enfadonhas e rotineiras tornam-se significativas e compensadoras.


O campeão não é necessariamente a pessoa que tem mais, mas sim a pessoa que dá mais de si. O campeão está pronto a arriscar toda a sua personalidade na tarefa. O segundo colocado, que talvez tenha um potencial igual ou superior, retém sempre alguma coisa. Penso agora em Michael Schumacher e Barrichelo. Aquele pilota com brilho, colorido e alma. Este executa as tarefas da equipe, rigorosamente burocrático, nunca se arrisca como o fazia, por exemplo, o nosso inesquecível e eterno campeão Ayrton Senna. É o que diferencia eficiência de eficácia. Eficiência consiste simplesmente em “fazer as coisas de modo certo”. Eficácia vai mais longe: além de também “fazer as coisas do modo certo”, essas coisas feitas dão resultado positivo, causam impacto, atingem os objetivos propostos. Não basta a seleção brasileira de futebol jogar bonito, de modo eficiente na Copa da África. É preciso colorido. Esse colorido, infelizmente, Dunga deixou para trás, na Vila Belmiro Ganso e Neymar. Vai jogar de modo eficiente, isto é certo. Se vai trazer o caneco, que vai encher a nossa alma com o colorido tradicional de nosso futebol, aí é outra coisa!
Muitas vezes é o medo do fracasso que nos impede de dar tudo. É como se nos preparássemos para desculpar antecipadamente o nosso insucesso, de maneira a podermos dizer: “Eu não tentei a sério.” Paradoxalmente, a pessoa perder-se no trabalho que está fazendo é a única maneira de encontrar-se a si mesma. Quanto mais se dá, mais se tem para dar e maior número de arco-íris se cria.


Há aquele que diz: “Mais importante que o arco-íris no céu é o dinheiro que você tem no bolso!” Não penso assim. Olho para a minha conta bancária uma ou duas vezes por semana. Mas comigo mesmo eu tenho de viver todos os dias, todas as horas, minutos e segundos.


Fazer alguma coisa que possa considerar sua satisfaz uma necessidade profunda do homem. O mundo material em que vivemos é obstinado e caótico. Todos nós sentimos a necessidade de impor a nossa ordem pessoal em algum pequeno setor.


É assim que descobrimos quem somos.


É assim que criamos arco-íris!

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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