O frio que aquece

Por: José Antonio Pereira

Em qualquer manhã de qualquer outono, uma lufada de vento ou, quem sabe, uma simples brisa fresca podem lamber o rosto e inverter o sentido dos cabelos fazendo com que pareçam rebeldes. Não é o calor do verão que desperta novos sentimentos, nem a incidência multicolorida da primavera que nos faz mais vulneráveis ao amor.


 A estação que antecede o inverno, quando o clima vai se tornando mais frio, deixa-nos predispostos a necessitar de mais calor humano. Incrível não? Não existem explicações científicas para o fato, mas se nos reportarmos às paixões advindas do outono/inverno, teremos sem dúvidas a constatação de que os romances mais ardentes crescem quando as temperaturas tendem a cair.


 Esse clima idílico pode ter origem na visão aconchegante das chamas de uma lareira requintada, da luz de velas num castiçal ou de um fogão de lenha na roça. O fogo não possui classe social. Já não se pode dizer o mesmo do vinho, uns dignos de bolsos abastados, outros nem tanto, mas todos podem ser degustados, tanto este quanto aquele, com o olfato, a visão e o paladar...


 Assim é um novo amor; como o vento, o fogo, o vinho e o tempo, pode nos fazer sentir, aquecer, saborear e vivenciar. Pode ser ainda suave ou devastador, morno ou quente, palatável ou delicioso, passageiro ou eterno.


 Em qualquer manhã de qualquer outono, qualquer olhar pode, mais que ver, observar que os zéfiros brincam com a folhagem das árvores, dotadas de um verde já esvanecido caminhando inexoravelmente para os tons pastéis do próximo inverno. Mas nossa alma, se é que possue tonalidades, de branca torna-se rubra, a cor da paixão. Os olhares femininos ficam mais intensos, os masculinos mais famintos!


 Ao fim do outono, a proximidade do inverno aquece os desejos, fazendo emergir o sentido de caçador no homem. Talvez haja nesta época do ano mais feronômios na atmosfera, quem sabe, provenientes do andar lépido e faceiro das fêmeas mais suscetíveis ao amor em razão da mudança climática. Não externo estas observações como uma tese científica, lógico. Mas, cabe supor, apenas como modesto Don Juan. Pois mesmo sem ousá-lo, o somos todos um pouco ou temos a presunção de o ser. Como é dito até hoje pela maioria das mulheres: “os homens são todos iguais, só pensam naquilo”!

 

Hélio França
Engenheiro

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