Domingo sangrento

Por: José Antonio Pereira

“Sunday, bloody sunday” é uma das músicas que John Lennon escreveu depois do fim dos Beatles e se refere a acontecimentos reais. Existem filmes com o mesmo nome, mas o que vou narrar de fato aconteceu aqui em Franca e nada teve de sangrento, apenas de repressão aos costumes. Só por isso ficou conhecido no IETC como “o domingo sangrento”.


Eram os anos 1960, nesta pequena cidade do interior, puritana como todas as outras, já era tempo da ditadura. Um dos principais pontos de encontro da juventude eram as sessões de cinema do São Luiz, hoje transformado numa igreja. Aliás, o cinema talvez fosse o único prédio projetado por Cariolato que merecia ser preservado, mas como sempre Sidnei fez o mais fácil e conservou a casa onde ele morou, um pastiche arquitetônico que Cariolato apenas reformou. Aliás, no governo Sidnei, a preservação histórica já era. Os prédios tombados estão sendo alterados sem qualquer controle mais efetivo. A Unesp foi pintada com outras cores, o telhado alterado, a estação ferroviária também teve seu telhado mudado, construíram um trambolho de lata atrás do museu. Enfim, acabou mesmo qualquer ilusão a respeito. Cada um faz o que quer com o patrimônio histórico, é o estilo do prefeito.


O fato é que, naqueles anos 60, chegou um delegado novo na cidade, disposto a zelar pela moral e pelos bons costumes. Havia controle de idade no cinema, os filmes eram classificados para maiores de 14 ou 18 anos e a apresentação da carteira de estudante da UESF era obrigatória. Na portaria do cinema ficava de plantão o doutor das Bicicletas, do Juizado de Menores ou coisa parecida. Mas o delegado resolveu inovar.


O São Luiz era enorme, mais de mil poltronas. Na parte alta, alcunhada de “poleiro”, ficavam os namorados mais atrevidos, dispostos a dar um “garra”, palavra usada na época. Naquele domingo, sem ninguém saber ou prever, o delegado entrou no escuro uns trinta minutos depois de iniciado o filme, com um “lanterninha” ao lado e foi conferindo o que estava ocorrendo em cada fileira do cinema. O sujeito com um braço no ombro da namorada? Rua. Até casados ele colocou para fora. Beijando então, rua e ainda um belo “sabão”. Foram dezenas de casais atingidos pela sanha moralista do delegado, que ninguém mais assistiu o insosso filme de faroeste que estava passando na tela, mais emocionante foi acompanhar o “rapa” geral. Foi o “domingo sangrento”, o dos expulsos do cinema.


Na manhã seguinte, nos corredores do IETC, corria solta a pergunta: quem foi colocado para fora pelo delegado? Todo mundo queria saber quem tinha sido e o que estava fazendo. Afinal, curiosidade mata. Hoje, são senhores e senhoras da mais alta sociedade e acima de qualquer suspeita, até porque ninguém estava fazendo nada de mais. O delegado? Esse foi logo promovido, removido da cidade e, de vez em quando, lembrado por sua total insensibilidade.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

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