Catar-se

Por: José Antonio Pereira

Depois de tudo e de tanto, quarenta anos juntos, ainda se queriam.


Nela ele via a vivacidade imorredoura dos olhos, nele, ela enxergava a solidez de uma vida lúcida.


Era bonito vê-los ainda dignos, sofisticados, de certa forma celebrando o inominado de ambos, café da manhã numa varanda verde, a céu aberto, a mesa cuidadosamente posta, toalha de linho branco bordado, delicadezas reais como uvas, uma orquídea no centro, ou a manteiga batida na hora, em cadinho de vidro sobre o brilho fresco do gelo.


Comiam não como quem se abastece na subsistência, mas como quem se presenteia a si mesmo com vagar e prazer, dia alto, até que súbito, o céu se acinzentasse e o não-dito, feito nuvem insustentável se interpusesse entre os dois. Ou ainda, o dito e redito, mas não assimilado recaísse em repetição sem saída.


Então, tudo aqui se desconstroi, porque em verdade, não há solidez tal. E esse café da manhã de dois maduros vai revelando-os, quarenta anos compartilhados, amor e acomodação, mágoa pesada idem.


Daí, as garras dela lentamente aparecendo no crescendo de uma frase, uma notícia dada ali em tom disfarçadamente fortuito, porque, oh não, fortuito não seria:


- Você leu ontem no jornal sobre o projeto de lei que prevê penalização a pais que não assumiram afetivamente filhos ilegítimos?


Acossado mas resignado (sabia aonde isso sempre chegava) ele desviaria o olhar cansado e diria que sim.
Ela, ferocidade avolumada pela passividade no homem que não se defendia daqueles prelúdios marciais, a rispidez soando dura na voz, um suco de laranja lhe descendo pela garganta em chamas:


- Pois então. Não tem medo que o bastardinho venha lhe reivindicar o quinhão de afeto inegociável, senão, claro, por alguma tradução monetária?


Afastando dos lábios a xícara de café com leite que já lhe azedava à mera visão ele pôde responder:


- Medo? Não, não tenho medo. Já tive sim, muito, culpa também. Se “tradução monetária” é realmente a única coisa que posso oferecer a esse a quem você chama “bastardinho”, homem crescido de 45 anos que por cuidado a você jamais assumi, que seja então.


Dessa vez, como se movida por força externa, buscando posição menos dolorosa, ela se mexeu na cadeira, empurrando-a para trás, como que para mirá-lo todo, à distância, em perspectiva e, sim, atingi-lo em cheio com um golpe só.


Teria visto ele na expressão tão conhecida da mulher o que jamais supusera: linhas de surpresa, alívio também?


Não, não fora isso o que vira. Nem adiantava tentar. Na cabeça dele, mesmo na pele, a repugnância à crueldade de que ela era capaz, desembrulhando-lhe à vista nua sua própria covardia. Defendia-se, sim, em pensamentos, deformando a mulher: aliviasse a harpia, a górgona, ao menos um pouco e eu não a detestaria como agora. Não me enfiasse o dedo impiedoso na fraqueza, o encaminhamento talvez fosse mais fácil.


Ela, ainda em esforço de manter-se de pé sobre sua dureza, muleta sem a qual talvez não se reconhecesse, agarrada então no seu tripé, chispou:


-Vá então chamá-lo filhinho, o pródigo involuntário.


Entendia que não eram os bens o que ao longo daquela vida dos dois sempre se punha em jogo, mas algo muito mais intraduzível. Então concluía resignado que o que ansiava ela, ele nunca soube. Nem queria mais descobrir. Só sabia que ela não era definitivamente o porto onde se sentia confortado na imagem de si mesmo. Era aguilhão. Mas, o costume. Tão acostumado estava com aqueles embates de amor-ódio simultâneos. Incensado num dia, maltratado noutro. Depois, sim, viria a calmaria e alguma restituição. Assim haviam sobrevivido a esses anos todos.


Ele pensava, ainda magoado: “provoca, mete-me na pecha da covardia, recua para depois avançar nessas ironias cortantes?”


Então ela emendaria, na tacada final:


-E as “nossas” filhas? As que eu quis e que nós não tivemos porque você não as desejou?

 

Vanessa Maranha
Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida e Cadernos Vermelhos

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