Na rota da seda

Por: José Antonio Pereira

O livro Seda, de Alessandro Barrico, um dos principais escritores contemporâneos da Itália, e dos mais traduzidos, leva o leitor a um mundo de viagens reais e imaginárias, com uma escrita simples, métrica, poética, lírica, mergulhada em metáforas, em casulos de criatividade e mistério. Ao mesmo tempo que a leitura é de fácil compreensão, migra pelas imagens para uma complexidade ímpar, exigindo do leitor abstrações baseadas em subjetividade.


Seda pode ser analisada como romance, novela, conto; em alguns parágrafos é pura poesia. Este livro foi transformado no filme Paixão Proibida, dirigido pelo cineasta François Girard. O romance narra a história de Hervé Joncour, morador da pequena cidade francesa de Lavilledieu. Em 1861, aos 32 anos, é casado com a bela e meiga Hélène e não tem filhos. Um dia ele sai de seu mundo feito de rotinas cristalizadas, de sua zona de conforto, e se lança por influência de Baldabiou (comerciante e fabricante de seda, reconhecido na região) ao desconhecido, ou seja, ao novo em sua vida, passando a comprador e vendedor oficial de bicho da seda. Com a epidemia da pebrina assolando a região, Hervé muda sua rota de viagem e vai para o Japão, tornando-se contrabandista, pois naquela época, e neste país, o comércio da seda era proibido. Mergulha num mundo misterioso, sai de seu casulo interno e geográfico, aventura-se ao fim do mundo. Torna-se um estrangeiro, enfrenta o choque cultural. Ao mesmo tempo que essa terra causa medo, espanto, revela-se encantadora. Irrompe uma paixão proibida... Na clandestinidade, passa a negociar os bichos da seda com o poderoso guerreiro bárbaro Hara Kei. Através dele conhece a jovem misteriosa que o acompanhava servilmente e por quem se apaixona.


Entre o estrangeiro maduro e a menina-mulher nativa, surge a linguagem do olhar. Desejo e fantasia aparecem mareados nos olhos de ambos. O proibido se instala e os órgãos dos sentidos se tornam os canais de comunicação entre eles. O homem pacato, fiel a Hélène, revela-se a si próprio. Surge a ambivalência... Depois ele retorna à França, mas não esquece a jovem que não possuía olhos orientais. Hervé ama Hélène e deseja a outra, a bela “gueixa” com seu quimono da mais pura seda. Estranheza, fascínio, paixão...


Baricco, numa linguagem ímpar, entre o leve e o denso; o abstrato e o concreto, tece aos poucos fios brilhantes, sedosos, que enreda o leitor como um desafio de entender esta trama, esta tessitura. Hervé retorna mais três vezes ao Japão. Seu desejo quer se concretizar, sua imaginação voa alto, mas Hara Kei corta suas asas com uma navalha de pura seda. Hervé retorna à França, posteriormente Hélène vai ficando doente e morre com seu segredo que depois será conhecido... Hervé entra em estado de pura melancolia, passando a ser o fiel jardineiro do parque floral que havia construído para Hélène. Seria uma tentativa de “reparação”?


Regressando ao mundo conhecido, a solidão é seu par, porém com a “experiência emocional” (expressão chave na obra de Bion, psicanalista inglês) surge a aprendizagem. Ao entrar em contato com o desconhecido em si e no externo, adquiriu bagagens internas, para ser o contador de histórias de Lavilledieu. Histórias geográficas, de tradições e culturas híbridas como a seda.


Suas viagens intrapsíquicas estão incrustadas em si mesmo num céu azul, onde a seda tecida voa rumo ao fim do mundo, seu porto seguro são as flores de Hélène. Ela está presente nas pétalas do dia e no aroma da noite...
 

Lucia Helena Goulart Gilberto Pizzo 
Psicóloga clínica


Serviços:

Nome do Livro: Seda
Autor: Alessandro Baricco
Tradução: Léo Schlafman
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 126
Onde Comprar: Para Ler
Preço: R$ 35,00

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