O que é uma obra-prima da literatura ?

Por: José Antonio Pereira

Nunca se deixará de escrever livros, nem há indícios de que algum dia se deixe de levantar listas de obras-primas da literatura. Sempre houve muito mais livros do que é possível ler; e como eles se multiplicaram ao longo dos séculos, mais e mais listas dos melhores tiveram de ser feitas.


Semanalmente, acompanho a lista dos mais vendidos. Nem sempre a gente concorda com a lista, mas às vezes ela pode um forte elemento indicador de boas obras.


Viva quanto viver, você, leitor, na melhor das hipóteses, só vai conseguir ler alguns dos livros que foram escritos; por essa razão os poucos que você puder ler têm que estar na lista dos mais importantes. Talvez seja um consolo saber que estes tais são relativamente poucos.


Algumas obras críticas são publicadas para facilitar nossa vida, ou nossa escolha. Mas nem sempre o que indicam são obras-primas, mas com certeza são muito importantes. É o caso da obra Os 100 Livros que Mais Influenciaram a Humanidade a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade, organizada por Martins Seymor-Smith, tradução de Fausto Wolff. No Brasil, mesmo, temos algo do gênero, como Os 100 Melhores Contos Brasileiros.


A enumeração das obras-primas é coisa tão antiga como ler e escrever. Professores e livreiros da antiga Alexandria já o faziam. Nas aulas de latim, aprendi que Quintiliano o fez, em prol da educação romana, selecionando, segundo disse, tanto os clássicos antigos quanto os de seu tempo. Na Renascença, os mentores da revitalização da cultura, como Montaigne e Erasmo, faziam listas dos livros que liam. A suposição lógica é que a seleção varie com os tempos, mas há uma surpreendente uniformidade entre as listagens mais bem feitas de qualquer época. Em todas as idades os organizadores de listas incluem tanto livros antigos quanto modernos em suas seleções e sempre se perguntam se os escritores modernos estão à altura dos grandes livros.


Quais os traços comuns que definem uma obra-prima literária? Os seis que vou mencionar, extraindo fragmentos de minha dissertação de mestrado, podem não incluir exaustivamente todas as características deles, mas são os que considerei mais úteis para justificar minhas preferências ao longo de todos esses anos.


1  - As obras-primas são, provavelmente, os livros que mais se lêem.
Não são best-sellers de um ou dois anos; são livros que continuam sempre vendendo muito. E o Vento Levou teve relativamente muito poucos leitores se comparado às peças de Shakespeare ou ao livro D. Quixote. Seria uma estimativa razoável afirmar que a Ilíada de Homero, por exemplo, foi lida por pelo menos 30 milhões de pessoas nos últimos cinco anos.


2 - As obras-primas são populares e não pedantes.
Não são escritas por especialistas sobre especialidades para especialistas. Sejam elas de filosofia, ciência, história ou poesia, tratam sempre de problemas humanos e não de questões acadêmicas. São escritas para homens e não para professores. Não são dependentes uns dos outros, como no caso dos livros didáticos, onde a dificuldade ou o tecnicismo dos problemas tratados aumentam gradativamente e sempre remete o leitor a outras consultas. É o caso polêmico de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Trata-se de uma obra-prima pela profunda mensagem humana que traz e pela beleza estética da linguagem. É um livro permanente apesar de publicado em dezembro de 1902, até hoje é lido com o mesmo espanto e entusiasmo por quem se interesse pelo gênero; é um livro atual porque narra fatos que ainda ocorrem nos dias de hoje.

3  - As obras-primas são sempre contemporâneas. 
Foi o que eu disse sobre Os Sertões. Este livro fala sobre os dois brasis, um rico e outro miserável, perdido no interior, fala sobre a seca do Nordeste, sobre a corrupção, o analfabetismo, o ganho parco, a mortalidade infantil nas vilas miseráveis, a pretensa soberania nacional, a prevalência da civilização sobre os esquecidos...
Por oposição, os livros chamados “contemporâneos”, só por serem populares no momento, duram apenas um ou dois anos, no máximo dez. Você não conseguirá lembrar, provavelmente, os nomes de muitos best-sellers de há algum tempo e não deve estar interessado em lê-los. Os grandes livros, porém, nunca saem de moda devido a mudanças nas correntes de pensamento ou a ventos cambiantes de doutrina e opinião.
Quando trato sobre a contemporaneidade de uma obra-prima, encontro opositores que me alertam, por exemplo, sobre o fato de determinada obra não ser contemporânea e se incluir como obra-prima. Os Lusíadas tratam de um assunto que nada tem de contemporaneidade, mas é uma obra-prima pela permanência, pela mensagem humana e pela beleza estética. É na mensagem humana que posso identificar perfis de contemporaneidade perseverança, justiça, ambição, ódio, amor... Não os há em abundância n’Os Lusíadas ?

4 - As obras-primas são os livros mais fáceis de ler.
Não o trairão, se você souber lê-las. Têm mais idéias por página do que a maior parte dos livros em sua totalidade. Assim, pode-se ler um grande livro sem nunca esgotar seu conteúdo.
Obviamente, estou me referindo a um leitor medianamente culto e preparado para as grandes leituras. A obra-prima depende de um bom-leitor, nestes termos, como um concerto por uma orquestra sinfônica necessita de ouvintes mais ou menos esclarecidos sobre o autor, a peça que se interpreta etc. Portanto, a obra-prima não é necessariamente uma obra popular. O mesmo se dá com a música: é indiscutível a beleza das composições de Chopin, Bach, Beethoven, Debussy... Mas é necessário que o ouvinte tenha uma certa sensibilidade que lhe facilite a identificação com a composição.
Uma vez “aparelhado” para tanto, com certa cultura interior, as obras-primas tornam-se fácil leitura. Mas há de ser dito que elas podem ser lidas dentro de diferentes faixas de compreensão e com grande diversidade de interpretações. Exemplos óbvios são As Viagens de Gulliver, Robinson Crusoé e a Odisséia; as crianças os lêem com prazer, mas não encontram neles todo o significado e a beleza que deleitam uma mente adulta.

5  - As obras-primas são os livros mais instrutivos.
Isto decorre do fato de se tratar de comunicações originais: contêm aquilo que em outros livros não pode ser encontrado. Concordemos ou não com o que dizem, são eles os mestres da humanidade.

6  - As obras-primas tratam dos problemas da vida humana que nunca se puderam resolver.
Existem mistérios genuínos no mundo que marcam os limites do conhecimento e do pensamento humanos. A investigação parte não só do assombro mas também, normalmente, acaba nele. Compreendendo suas limitações, a sabedoria não se destrói, fortalece-se.
Leitores que somos, é privilégio nosso pertencer a uma fraternidade humana mais ampla aquela que não reconhece fronteiras nacionais. Não sei como escapar da Copa do Mundo, mas sei como nos tornarmos amigos do espírito humano em todas as suas manifestações, independente de coisas como tempo e lugar: lendo as obras-primas da literatura.
 
 
Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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