Os temas atemporais de Rosiska

Por: José Antonio Pereira

“Envelhecer é a mais abstrata das realidades humanas. Quisera ter sido eu a descobrir essa evidência. Não fui, foi Marcel Proust, que, da vida e das gentes, soube quase tudo e registrou com ditos de virtuose.” Com esta reflexão Rosiska Darcy de Oliveira começa o texto O fato e a foto, do livro Chão de Terra, editora Rocco, lançado no último março como um dos eventos que no Rio de Janeiro marcaram o Dia Internacional da Mulher. A autora, dos discursos mais consistentes e sugestivos dos nossos dias, já foi presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e exibe em seu currículo longa militância política que a levou a buscar refúgio na Europa nos anos mais duros da ditadura militar. Os tempos terríveis não endureceram sua alma que continua falando aos leitores com uma suavidade que torna mais palatáveis as duras verdades que diz. Que envelhecer é difícil, por exemplo, pois pensar nos anos que se somam ou que se subtraem, depende do ponto de vista, é sempre doloroso, pois somos instados a constatar que o tempo é nossa condição de vida, ou que somos enquanto seres humanos um tempo que flui e se esgota, nada mais. Por outro lado, há que se pensar também que um corpo “que vive de suas escolhas já é, em si, uma liberdade. A cada um o risco de escrever, com suas escolhas, sua autobiografia.”


Transparece ao longo da leitura uma sutil costura feminista que confere aos textos unidade e move a autora, desvelando-se tanto na escolha dos temas como na elaboração do discurso, extremamente literário mas fácil, acessível, o que representa qualidade importante. Não há malabarismos linguísticos ou mentais em Rosiska. As imagens são fortes, as metáforas pungentes, a construção frasal sólida, o padrão de parágrafo respeitado, o estilo elegante - e a clareza está lá, seduzindo o leitor apaixonado que não consegue largar o livro. Rosiska não é só pensadora de mergulhos profundos, ela é escritora de muitos recursos estilísticos. Com forte poder de síntese, quatro páginas de Rosiska, tamanho médio de cada texto, nos fornecem motivos para longas e profundas reflexões. Não há uma palavra gratuita, uma vírgula deslocada, um único pensamento obscuro. E embora sério e consistente pelo que propõe ao leitor como tema, Chão de Terra é delicioso de ler pela plasticidade que é uma das maiores qualidades da autora.


Não é fácil definir a que gênero pertencem os textos deste livro que nos estimula o pensamento em cada página. Como todo escritor que produz também para jornal, Rosiska, que assina coluna n’O Estado de São Paulo, parece falar ao seu leitor com uma intimidade que acolhe e acaricia. Mas se enganam os que definem como crônica o que ela constrói com palavras, porque se há leveza na sua forma livre e pessoal, não existe datação, o que mais caracteriza o gênero. Nem suas orações se encadeiam obedecendo à ordem cronológica, gênese de toda crônica como exercício de um relato geralmente urbano. Eu diria que os textos de Rosiska são ensaios. Como os de Montaigne falando sobre o tempo, a vida, a amizade, a efemeridade. Como os de Maria Luiza Salomão neste caderno, discorrendo sobre movimentos interiores, afetos, percepções, expansões de alma. São temas eternos amor, frustração, raiva, ciúme, gratidão, vingança, infância, maturidade, arte, viagens, chegadas e partidas. São contemporâneos outros que, enraizados nas mudanças de paradigma de nosso tempo, impõem radicais mudanças de comportamento ao homem e à mulher: a ditadura do corpo, a exigência da eterna juventude, as pressões no trabalho, os excessos do consumo etc. O título Chão de Terra pode ser entendido como metáfora de apoio, suporte, lugar do qual não podemos nos esquecer para não escapar da realidade.


 No final de sua leitura, vamos nos lembrar do que diz Adriana Lisboa na orelha do livro: “Não se iluda, leitor, este não é um livro inofensivo...” Eu acrecentaria: ...mas use sem moderação, porque ele nos ajuda a ter mais lucidez para encarar a vida, esta que surpreende sempre.

 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço

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