Mercadão

Por: José Antonio Pereira

Apoiado na bengala, o velho faz a escalada. Cada um dos seis degraus semelha barranco ou morro a ser vencido. A subida é vacilante em direção à porta que ostenta no frontispício a legenda: Correios e Telégrafos. Após minutos compridos, o velho alcança o altiplano, enxuga com o lenço o suor da testa e deixa seus olhos cansados passearem pelo mundo que borbulha lá embaixo.


Na Praça 9 de Julho, repleta de barracas, parece estar acontecendo quermesse de igreja. Lá longe, o imenso terminal de ônibus ocupa o lugar onde ficava a Rodoviária e o Mercadão.


Os olhos fazem esforço vão para reconhecer, para localizar a Farmácia Dom Bosco, do Manuel Vieira de Andrade, o Bar e Restaurante Rodoviária, para localizar a mala do Zé Biloca, repleta de bugigangas cada dia mais.


A busca é interrompida quando pousam mão no braço do velho.
- Bom dia, Sô Chico. Veio botar carta no correio?
- Bom dia. O jovem me conhece?
- Conheço, sim.
- Qual é a sua graça?
- Antônio. Antônio Domiciano.
- Chico Franco, seu criado.


O velho leva a mão à aba do chapéu. Encara o outro com olhos lassos, e é uma voz cansada que formula indagação.
- Eu conheço o jovem?
- Eu sou carteiro, mas quando era moço eu morei lá na Estação. Morei mais de 15 anos lá na Rua 5 de Julho, via muito o senhor. Mas faz muito tempo, o senhor não lembra mais.
- Ah, eu sabia que a sua fisionomia não era estranha.
- O senhor veio postar correspondência?
- Não, não, jovem. Subi aqui no alto pra ver melhor. Veja, acabou o Mercadão.
- Mudou tudo, Sô Chico.


- Teve um tempo que eu vinha aqui todo dia. Eu saía do serviço e vinha almoçar aqui, no bar do Ricieri. Eu era amigo dele e da dona Tomásia. Eu era muito amigo da família. Você sabia que, de primeiro, ele foi empregado do Bar e Café Indiano? Pois é. Foi empregado lá de 1948 a 1959. Aí, ele e o Geraldo, irmão dele, compraram o bar. Era um lugar importante, muito importante. Sabe quem não saía de lá? O Flavio Rocha, o Bernardino Pucci, o Elias Facuri, o Jorge Tabah, o Juca Jacinto... só gente da alta. O José Gonçalves só bebia cerveja inglesa. Ele era dono da empresa de ônibus São José. Era um lugar importante. O Arnaldo Barbieri até pintou um quadro do jatobá que tinha na Praça Barão, defronte do Indiano. Pintou em 1956 e está lá na casa do Ricieri até hoje. Depois o meu amigo Ricieri foi tapeado. Falaram que o prédio ia ser derrubado, que ele precisava assinar uma papelada e sair de lá. Ele acreditou e desmontou o bar. Aí, o Zé Luís Marangoni alugou um cômodo pra ele, pregado nos Móveis Santa Maria. Lá é que funcionou o Bar Restaurante Indianinho de 1974 a 1978. Depois, ele fez um negócio bom, montou bar dentro do Mercadão. Mas só ficou lá durante quatro anos. Tudo ia bem, mas o prefeito da época fechou o Mercadão, botou todo mundo pra fora e mandou derrubar tudo. Agora você veja bem como é a vida: aconteceu tudo isso com o meu amigo Ricieri, que comeu o pão que o diabo amassou, e nem pensava que o filho dele - o Gilmar Dominici - ia virar prefeito e construir essa belezura de terminal.


- O senhor já viveu muito, já viu muita coisa, hein, Sô Chico.
- Ah, menino, já vi muita coisa. Coisa boa e coisa ruim. E tudo ficou guardado aqui na minha cabeça. As pessoas até falam que eu tenho cabeça de elefante, porque guardo tudo. É verdade, eu não esqueço nada, guardo tudo na cabeça, tintim por tintim. Qual é a graça do jovem?
- Antônio.
- Se mal lhe pergunto, Antônio de quê?
- Antônio Domiciano.
- Vejam só... Eu já fui muito amigo do pai de um menino que também se chamava Domiciano. Ele mexia com música, era compositor. Ele que fez a moda Massa Falida. O jovem, se mal lhe pergunto, faz o quê?
- Sou carteiro.
- Bom, muito bom. É uma profissão honrada. Mas o jovem me desculpe, tenho de ir andando. Eu moro longe, atrás da linha do trem. Vou pegar o atalho do Viaduto dos Bambus... até outra hora.
- Quer que eu ajude o senhor a descer a escada?
- De jeito nenhum. Ainda tenho muita força nas pernas, não preciso de ajuda.
- Então vá com Deus, Sô Chico.
- Obrigado.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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