Os ossos da metalurgia

Por: José Antonio Pereira

Pouca gente sabe, mas tive uma breve e incrível carreira como artista plástico. Fui aluno de desenho na Faculdade de Arquitetura de Cláudio Tozzi, hoje um dos mais importantes artistas do país, e do Maurício Nogueira Lima, um concretista famoso, já falecido, ambos arquitetos. Influenciado por eles, ia a todas vernissages e aberturas de exposições em São Paulo e comecei a produzir desenhos e pinturas em acrílico sobre tela.


Naquele tempo, vivendo e estudando em Mogi das Cruzes, enfrentando a neblina e o frio permanentes daquela região incrustrada entre o rio Tietê e a serra do Mar, ampliado pelo bloqueio dos ventos pela serra do Itapeti, desenhar e pintar nas horas vagas era estimulante. Morava numa república com o Osias, um curitibano empedernido, atleticano roxo e acostumado ao frio e, junto com o Túlio Naves, alcunhado Dargo e o Ivo Pistéco, de Jacareí, formávamos um quarteto inseparável na faculdade. O sofisticado Osias me fez experimentar o tal de caviar, numa festa de abertura de uma exposição do Cláudio Tozzi, nunca tinha provado antes ovas de esturjão. Depois daquela vez, nunca experimentei de novo.


Logicamente, com o avanço do curso, fui me dedicando cada vez mais ao desenho de arquitetura, que era manual, não havia computadores e programas gráficos eletrônicos como hoje. O desenho era feito com canetas a nanquim que entupiam a toda hora, borrava-se o papel e a roupa. Os textos eram normografados, um suplício constante para os canhotos, pois o equipamento era apenas para destros. Cada erro no nanquim sobre papel vegetal tinha que ser corrigido com um estilete. Enfim, coisas que não existem mais, só na memória dos que viveram aqueles tempos.


Também comecei a fazer desenhos em quadrinhos. Obviamente, como tudo mais que fiz na vida, o resultado no campo das artes plásticas nunca foi grande coisa. Mas, no final do curso, o Dargo, meu amigo de Jacareí, tinha um cunhado dono de uma metalúrgica em São Paulo. Ele estava fazendo uma reforma nos escritórios da empresa e, sabendo dos meus pendores artísticos, contratou-me para pintar um grande quadro para a recepção da fábrica. Pintei uma enorme tela em acrílico com o pomposo título de “Os Ossos da Metalurgia”, um treco entre o abstrato e o figurativo que misturava engrenagens e cores berrantes. É inacreditável, mas fui bem pago para fazer isso. Foi o único quadro que vendi na vida.


Tempos atrás, fui visitar o Dargo em Jacareí. Arrisquei perguntar pelo destino da pintura. O cunhado tinha perdido a empresa, o maquinário e o mobiliário tinham sido arrestados pela justiça para pagar dívidas com os funcionários. Ou seja, numa hora destas, “Os Ossos da Metalurgia” deve ter virado sucata para os carros alegóricos da escola de samba dos Gaviões da Fiel. Ou faz parte da decoração da casa de algum ex-metalúrgico da grande São Paulo. Se for assim, felizmente, ele não sabe quem perpetrou o crime.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor               

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