O silêncio de Guga

Por: José Antonio Pereira

Eu esperava o seu silêncio, já há algum tempo. Eu escutava o seu silêncio, através dos seus latidos, roucos e espaçados, de velho pastor. Seu pelo já mostrava a cor de quem viveu onze anos e mais quebrados. Seu caminhar se dava aos saltos, lentos, em câmera lenta, sem a agilidade confiante e precisa de quem domina o chão, o ar, o espaço.


Sim, eu ouvia o silêncio que já me prometia, em patas, olhos, pelos, recolhimentos caninos. Mas eu acordava com seu latido, e, na cozinha, enquanto preparava a comida, tinha como companhia o seu resfolegar forte de quem queria participar da minha vida, seu focinho farejador na porta.


Eu ouvia seu silêncio nos olhares longos, doces, a despedida vagarosa, sem acusação, na sua presença discreta. Da janela do quintal, eu o via irromper, súbito, vigoroso, as suas orelhas verticais a me saudar. Eu tentava me enganar... ah, se as orelhas estão assim tão tesas, tão vivas, ele não há de silenciar tão cedo...


A gente quer (precisa) se enganar - sempre - quanto ao silêncio definitivo de quem se ama.


A porta do canil está aberta desde ontem. À noite, até de madrugada, deixei a luz acesa no quintal. Estou aqui à janela, manhã do dia depois do Grande Silêncio, esperando as suas patas e as suas orelhas. Mas o silêncio é imenso. Vejo apenas o “véu de noiva” começar seu cacheado branco pelas beiras, como as têmporas do rosto, a acinzentar antes de branquear toda a cabeleira.


Fecho o vidro da janela, desisto, sinto o frio da sua falta. Suas patas não virão mais se apoiarem no batente, enquanto escrevo. Apenas as coroas vermelhas do bico-de-papagaio, detrás do muro, lá da calçada, gritam o outono, anunciam o inverno. O meu inverno do seu silêncio.


Sua personalidade, recolhida, até a hora final: respiração ritmada até o último expiro. Amoleceram as orelhas, amoleceram as pernas, as patas, você enrodilhado no cobertor velho, que já me agasalhou durante muitos anos passados, quando solteira.


Silenciou de vez, “for good”, “for real”, “toujours”, o seu “au-au” que já foi de criança, de adolescente, de velhinho, “au-au” nunca mais...


Só me cabe escutar, de agora em diante, o seu silêncio onipresente. Escutei antes, agora o escuto melhor, entre cantos dos pássaros, ruídos de automóveis, folhas que ciciam, debaixo do céu azul que não me diz onde é que você está, no jardim mudo, que não abriga mais você ao sol, na grama.


A casa virou um só silêncio, só, me silenciei quase toda. As paredes - só ouvidos - meus dedos a ouvir latidos, minha alma a ver orelhas e patas na janela, meu coração acarinhando seus pelos de velho pastor.


Continua sendo ainda meu guardião, meu velho pastor, mesmo no seu agora eterno silêncio, Guga!

 

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

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