Atirem a primeira pedra

Por: José Antonio Pereira

Costuma-se atribuir aos cegos uma memória extraordinária. De fato, a falta da visão obriga-nos a prestar mais atenção naquilo que nos dizem, nas leituras que nos fazem, nas coisas que nos rodeiam. O Dr. Flávio Rocha, portador de uma grave doença na retina, sabia usar com maestria a faculdade decorrente de sua visão subnormal. Além de Promotor Público, foi também prefeito e vereador. Destacou-se no exercício da advocacia pela sua argúcia e competência. Sua memória era cantada e decantada por todos e ele soube usar da fama que o envolvia para obter êxitos em sua atividade profissional. Citava (de cabeça) trechos de vários juristas. Indicava a obra e a página onde se podia encontrá-los. Numa de suas defesas orais perante Tribunais Superiores, ele usou e abusou de sua memória. Usou e abusou tanto que um colega que o acompanhava indagou-lhe:


- Como é que você consegue guardar tudo isso?


E Flávio respondeu:


- Ora, meu caro, como disse Papanus: verba volant. E, com um risinho malicioso, acrescentou:


- Quem é que se vai dar ao trabalho de conferir os autores, os livros e as páginas.


E o amigo, ainda curioso:


- Diga-me quem é esse Papanus.


- Flávio, ainda com aquele risinho malicioso:


- Não conte para ninguém. Papanus é o nosso conhecido Papanão, oficial de Justiça da Comarca.


Um dos epsódios (mais interessantes e relembrados) envolvendo o Dr. Flávio Rocha foi por ocasião da defesa de uma prostituta acusada de aborto. Habilidoso como sempre, ele influiu na composição de um corpo de jurados e fez questão de indicar homens muito experientes e frequentadores assíduos do alto, do médio e do baixo meretrício. No dia do Juri, Flávio postou-se bem de frente aos jurados e disse em alto e bom som:


- Atirem a primeira pedra.


Segundo consta, a ré foi absolvida por unanimidade.

 

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras