Água de melissa

Por: José Antonio Pereira

É bom no sopé de um rancho familiar desfrutar de conversa animada, riso, revista, livro, passeio de lancha e piscina, tudo regado aos sabores do pão-de-queijo ou da carninha ao ponto, acompanhada do gelo e...


 É bom ver a sobrinhada, geração nova, plena em vigor, no saudável ato de leitura, entre pausas célebres do nado e da comilança de brigadeiros e pães-de-ló. Como os devoram sôfregos!


 Neste cenário, a jovenzinha vem com Dom Casmurro, de Machado de Assis, o mestre do realismo brasileiro. Joga-o sobre a mesa, a reclamar da chatice da leitura, com a pretensão de interrompê-la. Como combater tal desinteresse? Como argumentar os incontestáveis valores da infindável obra? Tentei dizer-lhe da dubiedade ou não do adultério; da senilidade de Bentinho, narrador-personagem, que em sua casmurrice vê e cria coisas talvez só sugeridas pela genialidade de Machado; da possibilidade de invencionice do homem maduro e solitário. Em vão; a resposta veio pronta e abruptamente:


-  Ele é muito chato. Capitu é uma menina tonta...


E por aí afora se seguiram impropérios... É bom usar o argumento de que a obra faz parte de quase toda lista de vestibular, que Machado de Assis é genial, não superado, que é psicólogo nato, que analisa com propriedade tipos humanos, preferencialmente femininos e seus comportamentos.


 Lutar contra juventude abastecida de avatares, bruxos, magos, vampiros, guerra nas estrelas, novelas platinadas e que tais, não é bom não, evidentemente.


 É bom mesmo colher nas cercanias umas folhas verdíssimas, cheias de nervura da erva denominada melissa e fazer um doce chá a fim de serenar o acalorado colóquio.


 Na minha já quase senilidade, quase caduquice bentiniana, lembrei-me da conhecida frase do escritor, em uma de suas obras: “Água de melissa é bom para a saúde.”


 Resquício de vinte e oito anos de professorado de Português, ao usar tal conceito no ensino de predicativo do sujeito, que no caso não concorda com o sujeito água de melissa.


 É bom que este novo assunto fique para outro feriado, pois não pretendo me indispor com minha sobrinha.


 Machado em dupla dose pode não levar vantagem frente aos desvarios de algumas literaturas e filmotecas modernas direcionadas à juventude sedenta de aventuras novidadescas.


 Todavia não desistirei de convencê-la a ler excelentes textos, ainda que dure sua resistência juvenil.

 

Maria de Lourdes  Liporoni Martins
professora, escritora, membro da União Brasileira de Escritores e autora de Eu, Mercador do Eu Sou, Orgasmos de um Gordo e Contos,  Delineios e Pecê, o Computador Aloprado

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