Até os médicos

Por: José Antonio Pereira

A moda costuma ser cruel com as mulheres. São as cutículas retiradas sob tortura branda, a depilação cada vez mais sofisticada (até a laser), cabelos que, felizmente para elas, deixou de ser aquela montanha construída com o uso intensivo de laquê e de bobs, pequenas peças plástica roliças amarradas nos cabelos que eram o máximo nos anos sessenta. As mulheres ainda tinham que sentar-se sob um gigantesco e espacial secador para deixar as melenas sob controle para os bailes da AEC, que nunca mais se darão ao som da orquestra do Laércio ou dos Incríveis tocando Milionário.


O silêncio de uma geração sobre a sua própria história, a desastrosa falta de coragem do prefeito e da Câmara em preservar o prédio da AEC, a obediência obsequiosa do Condephat que tanto lutamos para criar, agora totalmente desfigurado e destituído de qualquer sentido e poder, me anima a contar as histórias, as outras histórias desta cidade, nem tão tristes, nem tão mesquinhas.


Naquela época, eu vivia às voltas com tropas, armas e soldados. Leitor ávido de histórias em quadrinhos sobre a II Guerra Mundial, conhecia de cor as armas e uniformes dos exércitos envolvidos. Construía batalhas na imaginação infantil, no quintal de casa. Para lavar e passar os ternos que meu pai usava no banco, a dona Maria Tintureira ia até minha casa buscar a roupa toda semana. Ao invés de usar bobs, ela usava uma rede na cabeça, que depois foi caindo em desuso, raramente vejo alguém com isso hoje em dia. O último a utilizar foi o galã Alberto Roberto, personagem do Chico Anísio.


Prestando atenção naquilo, achei fantástico, ideal para a camuflagem dos tanques de brinquedo no meio do jardim da minha casa. Até hoje, vê-se nos filmes de Hollywood, são utilizadas redes para esconder material bélico. Pedi para minha mãe, que pediu para dona Maria Tintureira um exemplar da pequena rede que ela usava no cabelo. E não é que ela me deu uma usada? Lá fui eu, orgulhoso, a esconder os pequenos tanques e caminhões de guerra com a rede de camuflagem da Maria Tintureira.


Pessoa simples e trabalhadora, com seu ofício instalado na rua do Comércio, pouco depois de nos mudarmos da rua José Bonifácio para a Júlio Cardoso, isso no começo dos anos 60, onde meus pais ainda vivem, dona Maria Tintureira passou por lá para dar uma notícia importante e de última hora.


Ela apertou a campainha, chamou por minha mãe, que às vezes espantava os pedintes aparecendo na porta com uma faca nas mãos, vinda diretamente das lides da cozinha. Quando ela abriu a porta, eu atrás, dona Maria Tintureira foi logo avisando minha mãe: “Dona Helena, a senhora não sabe o que aconteceu. Até os médicos estão morrendo. Soube que faleceu agorinha mesmo o doutor Ismael Alonso”.


Naquele momento espantoso, descobri que até os médicos morriam.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

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