Casas do coração

Por: José Antonio Pereira

Observar como se pode aninhar em casas onde escolhemos morar é adquirir um conhecimento refinado sobre a longeva afetividade que nos nutre desde que nascemos, a matéria com a qual se tece o nosso coração. É possível, assim, avaliar o nosso grau de intimidade que parte de dentro para fora. Os tempos de vida nas paredes (ornadas ou nuas), nos objetos eleitos. Repare.


A “casa-casulo”, a da infância, é para onde se retorna, mesmo que não exista mais em pedras e tijolos, como quem se volta para a mãe, jamais esquecida, como quem volta ao lugar de origem, para metamorfosear. O que fomos? O que somos? O que tornamos-a-ser?


No perfume, na dor e no embalo doce do tempo quase parado, lento, na “casa-casulo” mais importa as carreiras de formigas no batente da janela da cozinha, as sombras temidas na cortina do quarto de dormir, os estalos familiares do andar nas tábuas envelhecidas do assoalho, um pé de romã, um quadro que não existe mais, a não ser na lembrança vívida.


Esta “casa-casulo” é dona de um tempo que contém outros tempos, dona de um espaço que contém outros espaços.
A casa de “sótão e porão” é a casa da adolescência, mesmo que estes domínios não tenham existido arquitetonicamente. Estão na música que não se esquece, no diário decifrado em cheiros, arrepios e sustos. Há um só-tão-sonho na coleção de fotos (ou qualquer outra coleção), um porão na bricolagem de frases guardadas do que ouvimos, pensamos, recortamos. A adolescência é um tempo sem tempo, espaço de ondas de nuvens.


Casa é a cozinha-quarto-sala-de-visitas dos Afetos, é espaçosa ou prisão, na medida do Tempo e Espaço habitados. A casa é como o nosso corpo. O corpo pode entrar “em eclipse”, esquece-se dele por vezes, mas é nele que se forma o “senso de raiz”, de perda, de conforto e desconforto, de identidades cíclicas, transformadas ou feita de camadas como um coral. Nossas casas (ou a mesma) são o nosso retrato. É olhar e ver.


Uma casa madura tem passado, presente e futuro, há um palimpsesto de lembranças, no milhar de gentes que abriga nas paredes, cômodos, objetos, uma arqueologia afetiva que desencava algumas surpresas e reintegra achados e perdidos.


Andei contando em quantas casas vivi até hoje. Quase trinta e, no entanto, uma guarda todas, nos puxadinhos aqui e ali, nas metamorfoses, nos objetos de casas antigas, tempos e espaços diferentes, que foram aninhando, pinga-pingando, e se tornaram sempiternos. Objetos mortos estão enterrados, levitam na casa como fantasmas aristocráticos.


A “casa do coração”, a minha, tem todas as idades, é templo, cemitério, restaurante, parque de diversões, biblioteca, sambódromo, rodoviária, arraial de Santo Antônio, hospital, praça pública e observatório planetário. Não tem cara de museu, pois vivo à vontade nela, com toda a liberdade.


Há de sobreviver, até a mim mesma, o coração da casa.

 

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras