Dedos de luz

Por: José Antonio Pereira

No jardim de minha meninice, além das joaninhas e das borboletas; além do cheiro de mar e da sombra de copadas amendoeiras, havia o céu. Nem sempre azul, nem sempre estrelado, mas presente, sempre, e fascinante. Nos dias claros, a silhueta de um maciço montanhoso o recortava, ao longe. Papai nos dizia que era a Serra dos Órgãos. Nela, um pico se destacava, e o seu nome: “Dedo de Deus”.


Eu achava lindo aquele divino indicador de infinito; algumas vezes, obscuro, perfurando nuvens; outras, claro, refulgindo ouros ao sol da tarde ou da manhã; sempre insistindo em me mostrar alguma coisa além do azul. Olhava-o com curiosidade e respeito, com interesse e devoção. Era como se o dedo do Deus-Todo-Poderoso estivesse realmente ali, sobressaindo na mão fechada, apontando o inacessível aos olhos, o etéreo; reafirmando transcendências; dizendo-me: “Há alguma coisa acima do visível e do imaginável; muito acima de todo o luminoso e incógnito azul”. Decerto, uma coisa muito santa, muito bela, eu pensava.


Às vezes, sentava-me na beiradinha do “canteiro grande”, no centro do jardim, e olhava para o céu, tentando imaginar como seria esse mundo que o Dedo de Deus me indicava, essa outra “terra”, além do além.


Dedo de luz, leio agora em um site, na internet, e volto a me sentar na beiradinha do “canteiro grande”, no centro do jardim de minha meninice, e a olhar para o céu. Mas logo descubro que o site se refere a outro dedo de luz - ao significado, em árabe, da palavra tâmara, fruto da palmeira Phoenix dactylifera - a tamareira. Alongada, dourada e translúcida, a tâmara lembra, de fato, um dedo (dactylo) vazado em luz. E a palavra Phoenix, por sua vez, evoca o pássaro mitológico, símbolo da ressurreição, do ressurgimento das próprias cinzas; ave forjada em fogo - a Fênix.
Volta-me à mente o Dedo de Deus refulgindo ouro ao sol, e apontando para o além de meu alcance. Dizendo-me, mais uma vez, da existência de outra “terra” e, agora, revelando nela alguns detalhes: frutos de mel sob dedos transluzentes, e renascimentos possíveis sob cinzas e chamas. Versos de Neruda, então, me acodem, e advertem: “É hoje: todo o ontem foi caindo / entre dedos de luz e olhos de sonho, / amanhã / chegará com passos verdes: / ninguém detém o rio da aurora.”


Não chego a vê-la, a sabê-la, a compreendê-la, de fato, mas creio nela - aurora que não se pode deter; e nele - a apontá-la - dedo luminoso, vetor de reta infinita; direção, sentido e valor do imensurável, do imponderável; do, até hoje, inalcançável, que fez parte do céu de minha infância, e que ainda me acompanha, entre dúvidas e certezas; indagações e convicções.

 

Eny Miranda
Médica, poeta e cronista

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