Menino

Por: José Antonio Pereira

Como sobreviveu, talhado que menino mirrado fora para a morte, é algo que não se explica.


Quase natimorto, arroxeado chegara numa noite em brasa, num barraco de lata no topo de um morro, favela violenta, de mãe que paria bêbada maldizendo o que ali lhe dilacerava as entranhas.


Na manhã seguinte, a mãe raivosa entregou o menino seco, parecido com um camundongo amarelado pela icterícia a uma comadre que o botou no serviço público de saúde para recuperação. Dois meses depois essa comadre lembrou-se de buscá-lo e acomodá-lo em caixa de papelão forrada de panos, seu bercinho num barraco com outros oito viventes.


Fato é que aos cinco anos, Rato, como fora apelidado e, assim, oficialmente nomeado aos restos, já sabia abrir lata de cerveja sem se cortar para afiá-la em pontas: já roubava, já ameaçava. Daí à arma de fogo foi breve. Se houve alguém nessa vida que lhe tivesse dedicado amor, isso não transpareceu. Moleque descalço e encardido, já na bandidagem, vivendo na rua, estava sentenciado a algarismo de estatística.


Dez anos, 6 tiros de raspão e uma bala incrustada no fêmur a lhe provocar dor diária e ligeira manquidão que no entanto não o detinham. Catar plástico e papel na carriola. Engraxar sapato. Fazer aviãozinho nada ingênuo sob olhos vigilantes. Aninhar-se entre outros desvalidos iguais nas noites frias, em cima de papelão, sob cobertores rotos e imundos. Pedir, pedir, pedir. Certas noites era levado para abrigos de menores de onde fugia fácil. Não se habituava ao regramento das refeições servidas (e não buscadas, ou arrancadas, como era de seu costume e necessidade), em horário certo; do banho; das ordens; da laje branca sobre sua cabeça que só sabia adormecer ao relento estrelado. Não conhecia, enfim, a gramática de outra língua que não a das ruas.


O nariz sujo, a cara de ossos chatos, olhos esbugalhados de quem tem fome, esse Rato saía correndo desesperado e buscava, às vezes, puro instinto, sossego, alguma paz, no ponto mais ermo do morro que era a sua pátria. Como quem chega sedento de um deserto ou de um inferno, Rato ia pausando a marcha, vergando-se até se ajoelhar no chão, se encolher sobre a relva rala, retorno a alguma origem, o repouso total, estado de não-vida, os olhos fechados, as narinas sorvendo lentamente o ar. Quem visse ali a criança não a reconheceria infante, mas criatura, dessas de sangue frio, o imobilismo até a quase ausência de pulsações. Rato ali restava num estado só respiração para muito depois, revivido, retornar às praças, viadutos, às portas dos carros, ora pedindo, ora tomando o que lhe era negado, o fio cortante da lata bem amolada em riste, pé cascudo no chão, roupinha imunda, um semblante, um olhar de velho, nenhuma inocência mais naquilo que cada vez mais lhe parecia prisão e horror, aquela infância, de onde saltou, extenuado e sem saída, para os braços abertos da paternidade disforme e perversa do tráfico. Vida breve, delonga de nada.

 

Vanessa Maranha
Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida e Cadernos Vermelhos

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